Oração, um exercício em conjunto

João 14.11-14: Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras. Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei.
16.23: Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome.

Em seus últimos dias, Jesus deu instruções importantes para seus discípulos. Dentre os vários assuntos abordados pelo Senhor a oração foi não só interessante, mas muito revelador. Nosso Redentor trouxe algo novo e muito significativo para o exercício de oração: pedir em seu nome.

No AT não vemos qualquer tipo de pedido feito a Deus em nome de alguém que não o próprio Pai. Nenhum homem era digno de ser colocado como meio de se alcançar algo diante do Criador. Mesmo os reis, os sacerdotes ou os profetas, todos eram pecadores e não tinham qualquer mérito diante do Santo Deus. Mas, no caso de Cristo, isso é totalmente diferente.

Em seus últimos momentos antes da crucificação, quando ele iria cumprir a parte sanguinária de seu sacerdócio, ele revelou que também na oração nossa relação com o Pai é mediada por ele. Com a vinda do Cristo, a história da redenção chega a um ponto no qual fica muito clara a vontade do Pai: exaltar seu Filho. Conforme vemos em Efésios 1.10, o propósito da Criação é a exaltação do Filho. Isso, o Pai revelou no batismo de Cristo, quando ele disse: “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17). Isso significa que o prazer do Criador está em seu Filho e tê-lo como mediador em sua relação conosco é o modo de torná-la o mais agradável possível. Tal realidade ser revelada nesse momento é interessante e, certamente, está ligada ao sacrifício de Cristo, tendo em vista que, na oração do “Pai Nosso”, Jesus não ensinou a pedirmos em seu nome.

Diante disso, vemos que o que agrada o Pai é o Filho, não nossos esforços. Nossa oração não pode ser mais agradável a Deus por usarmos as palavras corretas, os lugares corretos, nem mesmo levando uma vida que pensamos ser a correta, com quanto isso nos conduza a pensar que podemos ir diante de Deus por nossos próprios méritos. Jamais! Tendo o Filho diante de si, levando nossas orações, não há nada que seja tão agradável ao Pai. Não tente, pois você sempre chegará com algo insuficiente, desagradável e manchado pelo pecado que ainda está em nossas vidas.

Ninguém é tão íntimo do Pai. Ninguém dá tanto prazer ao Pai. Ninguém é tão igual ao Pai entre os homens, como o Filho. Ele é um com o Pai e faz as mesmas obras que este. Portanto, pedir em nome do Filho é pedir por alguém que está no mesmo nível que o Senhor; e a proximidade é tamanha que Jesus afirmou que ele mesmo faria o que estava sendo pedido, o que é óbvio, já que Pai e Filho são um e ambos fazem as mesmas obras.

Nenhum profeta do Antigo Testamento tinha tamanha importância diante do Pai. Todos eram homens escolhidos e usados por Deus, mas nenhum poderia dizer aos seus seguidores que pedissem algo para Deus em seu próprio nome. Moisés, Elias, Samuel, Isaías, todos eram porta-vozes de Deus, mas não deram a ninguém a instrução para que se achegarem a Deus usando seus nomes. Há uma relação profunda entre Deus, sua revelação feita pelo Filho encarnado e seus discípulos. Após a vinda do Espírito de Cristo, a confusão na qual se encontravam os discípulos ao ouvirem da partida de seu mestre iria se dissipar pela ação instrutora do Espírito (Jo 14.26). Mais do que isso, o Espírito lhes concederia tudo o que seria necessário para que realizassem a obra que lhes fora outorgada. Nas palavras do comentarista William Hendriksen:

Agora aprendemos que não só pedir é em nome de Cristo, mas também dar. O Pai dará em harmonia com sua inteira revelação redentora que se centra no Filho, e com base em seu amor pelo Filho e no sacrifício deste. A união dos crentes com Cristo tem dois resultados práticos: de um lado, os amigos de Jesus são perseguidos por causa dele (15.21); do outro lado, eles são abençoados por amor a ele.[1]

Qual profeta revelou a Deus tão profundamente que, por amor deste oficial, Deus ama e concede contínuas dádivas em seu nome? Em Números 14.20 é possível ver Deus considerando o clamor do mediador do povo de Israel, Moisés, ao pedir que Deus não os destruísse por causa de seus pecados. Considerando este clamor, Deus mudou a direção de sua ação, contudo, não poupou os pecadores e não permitiu que entrassem na terra prometida. Ou seja, Deus teve grande consideração pelo mediador Moisés, mas isso em nada se compara com a possibilidade de um crente pedir algo em nome de Jesus e receber de Deus por amor desse nome. Israel não passou a pedir as coisas em nome de Moisés, mas através dele, para que ele fosse diante de Deus no lugar do povo. Jesus é o profeta que revelou o amor de Deus tão profundamente que, por amor desse nome, Deus atende o pedido.

Nenhum homem tem dignidade o suficiente para pedir algo a Deus diretamente. Todos os pedidos humanos seriam rejeitados por Deus não fosse sua misericórdia e graça em considerar os méritos do profeta Jesus como se fossem das próprias pessoas. Somente através de Jesus é que o pecador pode entrar com confiança diante do trono de Deus (Hb 4.16). Desta forma, somente através de Jesus o homem pode ter esperança de alcançar o que pede a Deus, pois somente pelo Filho se entra na presença do Pai.[2]

No Antigo testamento vê-se Jacó pedindo que sua posteridade invocasse seu nome (Gn 48.16). Contudo, esse pedido de Jacó nada tem a ver com a possibilidade do crente pedir algo a Deus em nome de Jesus. Para aquele patriarca o ato de invocar seu nome não era uma questão de alcançar algum mérito diante de Deus, mas de manter viva na mente do povo que tudo o que fosse alcançado seria por meio da aliança estabelecida entre Deus e ele.[3]

Por outro lado, como pensava Calvino, usar o nome de Cristo é reconhecer ou declarar-se filho de Deus. Ao comentar a oração do Senhor ele escreveu:

Porque ao chamar Deus de Pai, nos dirigimos a ele em nome de Jesus Cristo; pois quem poderia ter confiança para chamar Deus de Pai? Quem seria tão atrevido que usurpasse a honra do Filho de Deus, senão houvéramos sido adotados como filhos pela graça em Cristo, o qual, sendo seu verdadeiro Filho por natureza, nos tomou por irmãos para que, o que é seu por natureza, pelo benefício da adoção, seja nosso, se com verdadeira fé aceitarmos essa tão grande magnificência.[4]

Segundo essas palavras de Calvino, o simples fato de chamar Deus de pai é orar em nome de Jesus. Por nenhum outro profeta o crente poderia se achegar a Deus na confiança de se estar falando com seu Pai. Somente aquele que ensinou a seu povo a orar em seu nome poderia levá-lo ao relacionamento filial. Somente pelo profeta Jesus pode o crente alcançar boas dádivas diante de Deus, pois Cristo é seu filho em quem ele se compraz. É por esse prazer no Filho que o Pai concede boas dádivas àqueles que usam o nome de Jesus.

Contudo, é necessário entender melhor o que é pedir em nome de Cristo. De forma bem sucinta, Mathew Henry, comentando João 16.23, explicou que pedir em nome de Jesus é pedir reconhecendo o próprio estado de indignidade para receber qualquer favor de Deus, o que deve fazer o crente depender totalmente de Cristo e de sua justiça.[5] Fica claro nessas palavras que o simples uso do nome de Jesus nas orações não funciona como uma sentença mágica que faz coisas acontecerem. O que traz os benefícios não são os fonemas do nome de Jesus, mas sim, o fato de se estar verdadeiramente nele. Aquele que não tem a disposição correta diante de Deus, que usa o nome de Jesus apenas como um meio de se alcançar algo e não como o fundamento de uma vida levada diante de Deus (Hb 4.14-16), nada alcança e, de fato, sequer está orando em nome de Jesus. Esse será como um estranho que chega a uma casa pedindo permissão para entrar em nome de uma pessoa a qual nem sabe descrever. Assim são aqueles que não se vêem dependentes de Cristo: por não o conhecerem, não têm consciência de sua própria situação, pois ainda não viram a luz que revela a distância entre o pecador e Deus.

A alegria da oração, portanto, está no fato de que não estamos orando sozinhos. O Pai nos ouve por meio do Filho. Ainda que peçamos o que é indevido, o Filho está intercedendo junto ao Pai por nós, desviando sua vista de nossas más orações. A oração, portanto, é um exercício em conjunto.
____________________________________________________________________
[1] Hendriksen, William. Comentário do Novo Testamento, João. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 736.
[2] Cf. Juan Calvino, Inst., III.20.17, p. 685. Em pontos como este se vê claramente a ligação intrínseca dos três ofícios de Cristo, de modo que, não há como isolá-los e ignorar a mútua influência entre eles.
[3] Cf. Ibid., III.20.25, p. 692.
[4] Cf. Juan Calvino, Inst., III.20.36, p. 705.
[5] Cf. Henry, Mathew. An exposition, with practical observations, of the gospel according to St. John, in: E-Sword, v. 7.7.7, copyright 2005.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

"Alegrei-me quando me disseram: vamos à casa do Senhor" (Sl 122.1)

Qualidades essenciais do conselheiro cristão

O conceito bíblico de liberdade