Oração, um exercício da verdade


Continuando a falar sobre a oração, temos o ensino prático do próprio Jesus. Na sequência do texto de Mateus 6, vemos o “Pai Nosso”. Obviamente, como Cristo já havia ensinado a não usarmos de vãs repetições, temos de olhar para essa oração como um modelo. Não são suas palavras que devem ser guardadas, mas seu significado, seus temas. Por outro lado, isso não significa que não possamos, com sinceridade, orar esse modelo vez ou outra, com tanto que isso não signifique uma confiança no jogo de palavras, mas na realidade de nosso relacionamento com o Pai, por meio da oração.

Há algum tempo, ouvi uma abordagem dessa oração, que muito me agradou. O Rev. George Canêlhas, abordou o Pai Nosso com um ensino sobre as prioridades. Obviamente, essa não é a única forma de abordar os temas presentes no “Pai Nosso”, só a escolhi por ter sido algo diferente do que eu já vira anteriormente. Espero conseguir expor o que meu caro amigo fez, sem piorar seu sermão - hehe.

A primeira prioridade que vemos na oração é de Deus sobre todas as coisas. Jesus inicia sua oração voltando-se para a pessoa do Pai. Contudo, ele o faz não tendo o Pai como um interlocutor, o que é verdade, mas também como um assunto. Jesus nos mostra que, antes de tudo, temos de louvar e mostrar a Deus que sabemos com quem estamos falando. Qual seria nossa confiança no exercício de oração, se não soubéssemos quem é Deus. Aliás, para que orar, se não sabemos que Deus está acima de nós, nos céus, santo, intocável por sua criação, isto é, não limitado pela mesma. A santidade de Deus é próprio de quem está acima de tudo e todos. Nada afeta nosso Pai celeste, nada o muda, portanto, ele tem acesso a todas as coisas por si só, sendo digno de nossa confiança, pois, se alguém pode... é ele

Além disso, quando atentamos para a realidade de que estamos no Reino de Deus, torna ainda mais lógico procurarmos o Rei. Ninguém melhor para pedirmos alguma coisa, do que aquele que tem o domínio sobre tudo. Isso nos leva a ver que não só conhecemos a Deus, como sabemos muito bem onde pisamos. Quando oramos, temos de ter o mesmo sentimento de Moisés, quando o Senhor lhe falou para tirar as sandálias, pois a terra onde ele pisava era santa. Estamos no santo reino de Deus, tenhamos temor e humildade para falarmos com esse Rei, tão grandioso, mas benevolente a ponto de nos ouvir.

Não é à toa que Jesus nos ensina a pedir a vontade do Pai, em detrimento da nossa. Estamos em seu reino, ele é o todo poderoso e santo, não podemos pensar que estamos orando, a fim de o convencer a fazer algo por nós. A oração é um exercício de humildade, não de negociação com Deus. É justamente essa humildade que nos leva entender o verdadeiro papel da oração: comunhão com Deus. Isso nos conduz ao entendimento de que, quando oramos, não estamos numa batalha espiritual, buscando os despojos de nossa vitória; estamos diante de Deus, nosso “paizinho”, não precisamos lutar para obter algo, apenas confiar que estamos pedindo não só a alguém que pode nos dar infinitamente mais do que pensamos, mas que pode não dar infinitamente mais do que queremos, para nos ensinar que sua vontade, ainda que nos desagrade por causa de nossa insensatez, é boa, perfeita e agradável.

Nisso, também percebemos outra prioridade evidenciada no “Pai Nosso”: do espiritual sobre o físico. Antes de pedirmos o que é para o sustento do corpo, pedimos a vontade de Deus. Antes de nos importarmos com as questões passageiras desta vida, temos de nos voltar para as questões eternas. Os cuidados deste mundo não podem ser tão centrais. Não que as nossas necessidades físicas não sejam importantes, mas não devem ganhar mais atenção que as espirituais. Lembre-se, seu maior problema não é um casamento ruim, um filho revoltado, uma conta impagável, a falta de emprego, seu vício, mas seu pecado. Cuide de sua vida espiritual com a devida primazia, para que você não se perca em seus pecados, por estar ocupado demais pensando nos problemas deste mundo.

Por outro lado, a primazia do espiritual sobre o físico não significa que este seja sem importância. As necessidades físicas fazem parte de nossa existência e, entender que somente Deus pode supri-las, é uma forma de louvar nosso Senhor. Como estamos no Reino de Deus, procurá-lo para nos suprir as necessidades é honrá-lo como dono de tudo que existe. Portanto, que as necessidades físicas venham depois das espirituais, não significa que não possamos agradar a Deus com elas.

Continuando, a sequência nos leva a deixar essa abordagem das prioridades, e vemos outros importantes aspectos da oração. Temos de entender que, diante de Deus, nossos pecados sempre estão aparentes. Não podemos afirmar que entendemos o significado do início da oração, se não chegarmos até o ponto de pedirmos perdão por nossos pecados. Ou não entendemos a santidade e a grandiosidade de Deus, ou não entendemos nosso próprio estado de queda. No caso de estarmos, realmente, em comunhão com Deus, então, necessariamente, nossos pecados vem à tona. Foi por isso que Cristo nos ensinou a pedir perdão, pois ele mesmo não teria porque fazê-lo.

Somando a esse ponto do pedido de perdão, está a condicional: “assim como”. O perdão de Deus não está condicionado, mas, se de fato temos experimentado o perdão divino, por termos a devida consciência de nossos pecados, então, perdoamos nossos devedores. O que ocorre nessa condicional, de fato, é uma implicação, ou corolário ao perdão divino. Se verdadeiramente sei o que é perdão e tenho recebido esse perdão de Deus, impreterivelmente, perdôo o próximo. Isso significa que posso colocar a coisa em qualquer ordem, que terei a outra. Portanto, o Pai me perdoa na medida que perdôo o próximo; de outro modo, por ter o perdão, perdôo.

A condicional se estabelece pela realidade do relacionamento que tenho com o Pai. Se essa condicional é positiva, então, eu, verdadeiramente, sei o que é perdão de Deus. Se sei o que é o perdão de Deus, eu perdôo os meus devedores, pois sei que uma dívida muito maior eu tinha diante do Criador. Seguindo o caminho inverso, posso entender que o não perdoar é sinal que não sou perdoado por Deus. Isso é assim, pois, ao recebermos o perdão divino, aquele coração de pedra, cheio de justiça própria, que se achava no direito de não perdoar, é transformando num coração misericordioso, inundado pela graça de Deus.

Isso significa que a oração é um reflexo de toda nossa vida espiritual. Seu papel é de um relacionamento sincero diante de Deus, cujo conhecimento de nosso ser impede qualquer tipo de hipocrisia. Aliás, segundo Cristo, aquele que recebe o perdão de Deus e não perdoa é hipócrita, pois age como se não precisasse desse perdão que nega conceder.

Vimos, portanto, que a oração é um belo exercício de nosso entendimento sobre Deus, nós, as coisas e o próximo. Quanto mais aprendemos da verdade de Deus, melhor será nosso exercício de oração. Tenho certeza que, se nossa vida de oração anda fraca, seja pela quantidade, seja pela qualidade, é porque nos falta o conhecimento do que Deus nos revela sobre ele, nós, as coisas e nosso próximo.

Ore, meu irmão! Ore com verdade! Ore priorizando e focando o que realmente importa, ou com o que é mais importante na frente.

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