Minha avó, minha terra


Minha avó está completando 89 anos hoje e minha terra 50. Acho essa coincidência de datas bem interessante, pois são dois lugares nos quais me sinto muito bem: colinho da vovó e Brasília.

Minha vozinha é a melhor. Adora falar e contar suas histórias dos tempos em que meu avô serviu o exército em Brasília, isso pelos anos 70. Ela conta histórias muito interessantes, de um tempo em que as coisas ainda eram bem devagar e que a juventude se transviava – só para passar o tempo. Meu pai deve ter destruído uns 3 ou 4 carros do vovô. Uma vez fomos dar uma volta no setor militar e ele nos foi contando uma dessas vezes em que ele capotou o carro e deixou o meio-fio destruído. Quando ele apontou o lugar em que ele bateu no meio-fio, lá estava ele do jeitinho que ele deixou – mas pintadinho – 20 anos depois.

Brasília tem dessas coisas inesperadas, histórias lendárias. Tem as famosas fugas da polícia, de Nelson Piquet. Dizem que quando a polícia o abordava e pedia para que ele fosse para a delegacia, ele fingia que seu carro não pegava. Ele, então, pedia ajuda para os policiais que, inocentemente, iam ver o motor de seu fusca e, quando iam para trás do carro, Piquet se mandava.

Quando eu era criança, rodava a história do Diabo Loiro. Tal figura mitológica matava suas vítimas, desaparecia e deixava um cheiro de enxofre no local do crime. É claro que nunca vi a solução dos crimes, ou mesmo uma reportagem digna sobre o assunto. Mas todos tinham medo dessa lenda urbana.

Não tão lenda, mas não tão perigoso, lá pela 405 sul rodava a história do “Pisca”. Um cara, com uns 35 anos, que ficava pelos cantos da quadra, piscando para as mulheres. Quando conseguia conquistar alguma, ele as estuprava e matava. Sabíamos quem era o sujeito e, para uma criança de uns 8 anos como eu, ele era assustador. Eu e minha turma saíamos correndo quando o víamos, mas, apesar de anos de história e pavor, tudo acabou quando a secretária do lar lá de casa falou que saia com o sujeito. Pronto, lá se foram a lenda e as histórias espetaculares das fugas.

Tudo era muito interessante naquele tempo. Minha turma tinha mais de 30 crianças, que sempre andavam juntas: Rafael do 108, Leandro do 107 (números dos apatartamentos), César cabelo de fogo, Mourinha, Pedro Ivo, Gil Vicente, André e Andrézinho, Diego, Pedro Pedreira, João Paulo (que tinha o apelido “nada” preconceituoso de Negreti), Rodrigo e Fernando (esses irmãos ainda estão na 405), João Marcos, Patrícia, Catarina, Silvinho, Regis, Josi (invasora da 205 sul), Rodrigo, Alessandro e Fabiano (os irmãos do bloco K), Ganem, Renato, Guilherme, Wolney (lendário, pois capotou com a bicicleta e perdeu parte do nariz, mas conseguiu refazê-lo), Diogo, Jackson (esse era pirado), Ana Bernardes da Cunha (essa foi minha namoradinha) – vai, dá quase os trinta.

Tínhamos espaço, energia e tudo que crianças adoravam. Brasília oferecia de tudo que era de bom para nós. Minha avó idem. A velhinha sempre dá o colo que aconchega e, com o Brasília, dá todo o espaço para os netos. Isso mesmo, dona Ida é daquela que estraga os netos. Como era bom, quando criança, passar as férias na casa da vovó. Comida à vontade, espaço e a possibilidade de se subir na cabeça dela e não levar aquela bronca. Como seria bom voltar no tempo e reviver minha infância e ter as duas coisas como eram: vovis e Bsb.

Mas o tempo passou, e todos mudaram. Minha avó, só ficou mais velha. Brasília cresceu – e muito – e tem muita novidade por lá. Já não é mais aquela cidade em que só se indo ao Gilberto Salomão para se ter diversão. As opções aumentaram e as coisas já não são tão simples como antes. De meu lado, mudei muito também. Estou em Osasco, na grande São Paulo, casado, trabalhando, menos meigo, mais gorduchinho (era atleta em Brasília, aquela cidade me convidava a correr).

Minha tristeza é a de não poder estar por lá. Queria ver a festa. Na verdade, como não gosto muito de muvuca, queria apenas sentir o cheiro do meu lugar. Ver o lago, dar uma passada na Esplanada e, quem sabe, descer com papelão no gramado do congresso, comer uma dupla na Dom Bosco, dar uma malhada no Piton Farias (para mim nunca vai ser Sarah Kubitschek) e terminar o dia com um arroz com brócolis, farofa com ovos e picanha no Francisco.

Brasília tem tudo isso, e muito mais. Minha terra é o lugar do Brasil. Lá nasci, cresci e deixei meu coração apaixonado por um lugar que chamo de meu. Aqui em Osasco tenho o meu Ap., meu trabalho, meus livros e, principalmente, minha esposa. Aqui é o meu lar, mas aqui não é Brasília. Já disse à minha esposa que, quando eu morrer, me creme e jogue minhas cinzas no Lago Paranoá. Nasci naquela terra, quero lá terminar.

Vovó, te amo. Brasília, ainda sou apaixonado. Parabéns para vocês.

Comentários

  1. Oi mô...
    Parabéns, esse texto ficou lindo!
    Você me fez chorar, pois a sua alma ficou bem refletida nas suas palavras.
    Que pena que não fomos a Brasilia.
    Que pena que não fomos ver D. Ida.
    Vamos torcer para em breve termos a oportunidade de aproveitar da vovis e desse lugarsinho que vc tanto ama!
    Te amo sempre! bjo.

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  2. Meu amor, você me conhece como ninguém. Sabe que minha avó é uma das pessoas mais importantes para mim e que a saudade de minha terra sempre dói em meu peito. Mas não posso reclamar por estar longe de Bsb, nem de minha avó, pois isso me trouxe você (é claro, que pelo plano de Deus).

    Te amo!
    Beijos

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  3. Dois lindos
    Deus continue abençoando........beijos Késia IPB de Itapevi.

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  4. Obrigado, irmã. Saudade do povo da IP de Itapevi.

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