Uma frase tem ocupado muito minha mente: “Ainda que o Senhor não nos tivesse dado promessas, e não nos tivesse abençoado tanto, e não nos tivesse justificado em Cristo, ainda assim ele continuaria a ser digno de toda honra, glória e louvor e completa dedicação de cada ser humano. Servi-lo tem a ver com seu ser, antes de tudo. Suas obras só acrescentam mais motivos para que o sirvamos.”
A frase é minha mesmo e me ocupou tanto pelo fato de enfatizar o ser de Deus acima de qualquer coisa. Estamos tão acostumados com o louvor motivados pelas obras e promessas eternas de Deus, que penso que esquecemos que se Deus não tivesse dado, feito ou prometido qualquer outra coisa, seu grandioso ser e o simples fato de que por isso ele é o Criador, já deveria ser motivo suficiente para o servirmos.
Gosto de me lembrar da conversa entre o Senhor e Moisés. Este, com a incumbência de falar com o Faraó para que libertasse Israel, pergunta a Deus qual era seu nome. A resposta do Senhor não poderia ser mais profundamente simples; ele disse: “EU SOU O QUE SOU”. As poucas palavras definem tudo sobre nosso Senhor.
Ao dizer-se o Eu Sou, Deus está colocando-se como aquele que é absoluto e tudo em si mesmo. Diferentemente de nós que nos qualificamos a partir das relações que temos com lugar que nascemos, as pessoas com as quais convivemos, as atividades que desenvolvemos, o Criador é o que é em relação a si mesmo. Ele é autorreferente, independente, imutável, eterno, perfeito, onipotente, onipresente, onisciente e por todas estas coisas ele é o Criador e sustentador de tudo que existe. Por isso, ainda que ele não faça mais nada em nossas vidas, além de nos dar a vida e sustentar nosso dia a dia, ele é digno de nossa completa dedicação.
Não espere que algo que lhe seja dado ou que alguma promessa se cumpra. O Senhor é o que é e por isso nós lhe devemos o louvor, o serviço e toda admiração e gratidão. Nós somos por que Ele é. Ele é por si mesmo.
Tornou-se comum no meio evangélico um linguajar meloso e romantizado de se cantar a Deus. Vemos músicas com belos arranjos e com letras que, com algumas mudanças aqui e ali, poderiam ser utilizadas por casais de namorados, sem dever nada aos ícones da música romântica. O argumento é de que isso é fruto de nossa intimidade com Deus, porém, temos de ter cuidado com o linguajar, pois existem palavras que usamos com os amigos, com parentes, com conjugues, enfim, nossas relações pedem um linguajar próprio para elas.
Ainda que nosso relacionamento com Deus seja de intimidade, temos de nos lembrar que estamos íntimos de alguém que é muito superior a nós. Tratá-lo com um linguajar que usamos para com nossos semelhantes é um erro e até desrespeito. Os discípulos, por exemplo, mesmo andando com Jesus, comendo, dormindo, não deixaram de demonstrar, por meio do linguajar, que sabiam que estavam diante de alguém muito superior a eles.
Lembremos, por exemplo, de João, o discípulo amado, que inclinou-se ao peito de Jesus, para, na intimidade de sua relação, perguntar quem era o traidor, dizendo: “Senhor, quem é?”. Perceba que o relacionamento próximo não conduziu João a tratar Jesus como ele trataria a uma esposa, ou namorada. Por isso, me pergunto: por quê temos tantas músicas falando de deitar no colo, estou apaixonado, quero encostar no teu peito (o que nem faz sentido para a situação em que vivemos)?
Outro fator interessante, é que aquelas personagens da bíblia que foram descritas como tendo grande intimidade e importância nos planos de Deus, nunca usaram tal linguajar. Alguém poderia dizer que naquela época esse tipo de linguajar não existia, mas isso seria uma confissão de que este inquiridor nunca leu Cantares de Salomão. Esse livro está repleto de linguajar romântico e sensual, mostrando o proveito que a relação marital pode trazer para vida do homem, revelando que o relacionamento de Deus com seu povo lhe traz grande satisfação. Mas, lembre-se, o relacionamento marital é um exemplo, não um padrão a ser seguido. Ele serve de indicação do quanto Deus ama a seu povo e o quanto seu povo pode ter prazer em seu Senhor, porém, não nos mesmos e exatos termos e expressões.
Outra observação que podemos fazer é no livro dos Salmos. Aqueles são os hinos, os cânticos entoados pelo povo no Antigo Testamento. Os "compositores" experimentavam um relacionamento íntimo com o Senhor e, muitas vezes, incluíam o testemunho de milagres e até a mão de Deus pesando sobre seus pecados, de modo a movê-los ao arrependimento. Por mais profunda que fossem tais experiências, conduzindo o salmista a um relacionamento aprofundado pelo conhecimento e pela ação do Criador em suas vidas, nenhum deles usou palavras que eram utilizadas em relacionamentos íntimos entre homens e mulheres. Ainda que eu não concorde que só devamos cantar os Salmos, penso que eles servem de paradigma para que façamos nossas músicas.
Portanto, quando cantar, cuidado! Deus é seu senhor, não seu namorado, amigo, ou Zé da esquina. Ainda que tenhamos a possibilidade de chamá-lo de “paizinho”, isso não é a mesma coisa de dizer coisas melosas e romantizadas. Mesmo que pareça poeticamente bonito, não é teologicamente correto.
Ahhhh, a inversões diárias de nosso tempo. Eu ia postar mais um texto sobre piedade, mas a cena que presenciei ontem na novela das 21h – com padrão Globo de qualidade – me motivou a falar um pouco sobre essas inversões.
A cena era o apoio que um dos protagonistas da história dava à saída de sua filha de casa, após uma briga com a mãe. Na cena de gratidão, numa pousada que serviria de novo lar para a filha, esta abraça o pai e diz: - Brigada, pai. Você é mais que um pai, é um amigo.
Achei tão absurdo que perguntei à minha esposa se foi isso mesmo que ouvi. Logo me veio a mente essas inversões diárias, quando o que é principal é passado para trás pelo que é secundário. Nesse caso, o pai se torna menos que um amigo. O amigo passa ser aquele que demonstra amor, carinho, cuidado e compreensão. Pai é o cara que trabalha, para ganhar dinheiro, pergunta aonde você vai ao sair e dá uns pegas quando você sai da linha.
Talvez esses que praticam tal inversão ganhem argumentos para tanto com a crescente ausência de pais que não se dedicam à educação de seus filhos. Contudo, o correto seria dizer que esses pais omissos funcionam mais como amigos, do que dizer que os pais mais atenciosos agem como amigos. Pois, no caso visto na novela, o amigo ganha status mais alto que o pai e induz as pessoas a darem mais atenção ao que diz o amigo do que ao que diz o pai.
Parece algo isolado, mas não é difícil encontrarmos a situação onde os amigos têm mais influência sobre a pessoa, que seus próprios pais. A tristeza é que a sociedade tem dado apoio a tal inversão e alimentado com pequenos recados, como o dado na novela, o comportamento de inverter as coisas, levando à desvalorização da família e de tantas outras coisas.
Bom, que o mundo faça isso não é lá uma surpresa – afinal, o que esperar de um mundo caído? O problema é que as inversões se tornaram um lugar comum na igreja e as vemos por todos os lados. As pessoas invertem o amor a Deus pelo amor à igreja. A Igreja (os crentes) foi invertida pela igreja instituição (o prédio). Os dons, que me levam a dedicar-me à obra de Deus, foram invertidos pelos dízimos, que me ajudam a pagar os salários de obreiros que cuidam de tudo. Trabalhar para Deus tornou-se o cumprir as diretivas denominacionais, observando-se os relatórios, as confecções das atas, as diretorias, enfim...
Não sou contra nenhuma dessas coisas, desde que estejam em seu devido lugar. A inversão prejudica, torna a coisa em idolatria e deixa o mais importante para depois. Principalmente, a inversão nos conduz para longe da vontade de Deus. Hoje, na igreja, criança vem na frente, não os mais velhos. As pessoas se dedicam mais às questões internas do que a propagação do Reino de Deus – nos fechamos em nossas denominações. Trabalhar para Deus é ir ao culto e à escola dominical. Entramos numa “sinedoquezação” da obra – invertemos o todo pela parte, de modo que a parte se torna o todo e a coisa se torna maligna.
Desta forma, aquilo que começou lá na novela, como uma simples crítica ao texto do autor, torna-se um alerta às nossas inversões de todo dia. Zele por manter o foco e não deixe que o pecado lhe dê um invertida, levando você a acreditar que as coisas podem ter uma ordem distinta a dada por Deus.
“Piedade, meu Deus, tende piedade de nós!”
Quantas vezes não ouvimos esse clamor? No entanto, seu sentido nos desvia da
definição bíblica de piedade. Enquanto o clamor iguala piedade a misericórdia,
ou pena, as Escrituras tomam piedade em outro sentido. É importante que
percebamos isso, para que nosso entendimento dos textos que utilizam este termo
não seja comprometido e para que compreendamos como devemos ser piedosos.
Em 1 Timóteo 4.7-11 vemos diversos aspectos
da piedade. Paulo instruiu Timóteo a exercitar-se na piedade e, depois disto,
aborda como fazê-lo. Vemos ali o exercício da piedade como sendo o exercício da
palavra, do procedimento, do amor, da fé e da pureza. Isso significa que a
piedade é algo muito mais abrangente do que o ato de sentir pena. Resumindo o
que aqui vemos, o que é apoiado por outras referências bíblicas, piedade é o
conduzir-se segundo nossa fé.
Desta forma, agir com piedade exige de nós
muito mais do que comumente pensamos. Se queremos ser piedosos, como nos ordenam
as Escrituras, devemos viver segundo a verdade do evangelho, de modo que esta permeie
todas as áreas de nossas vidas. Não basta ter pena dos menos favorecidos, temos
de conhecer a verdade divina, buscar a santidade, interpretar a vida segundo os
olhos de Deus. Temos de ser pessoas da Palavra, da oração, da adoração, do
evangelismo, do amor ao próximo, do dia do Senhor, enfim, pessoas que não só
conhecem o conteúdo de sua doutrina, mas que vivem segundo este conteúdo.
Quando você estiver lendo a Bíblia,
lembre-se desta definição. Acrescente ainda que, no grego,o termo utilizado
para piedade significa reverência,
respeito, dedicação às coisas religiosas. Perceba, portanto, que a piedade
tem muito mais ver com nosso relacionamento com Deus, do que com o próximo. Seja
piedoso; viva de acordo com sua fé em Cristo.
Dia desses, conversando com uma ovelha de minha igreja, ouvi
dela seu testemunho sobre uma benção recebida. Claro que sempre é ouvir das
coisas que Deus tem feito por seus filhos, contudo, no meio do “bé, bé, bé”,
ela me solta a frase: “Ai, eu já tinha deixado de trabalhar aos domingos fazia
três meses e eu dizia: - ‘Senhor! Cadê minha benção?” Com a honestidade de quem
não sabe o que diz, essa irmã revelou o sentimento que está na maioria de nós
quanto ao nosso relacionamento com Deus: se eu fiz, tenho de receber algo em
troca – a famosa barganha.
De forma ingênua, nossa irmãzinha demonstrou uma compreensão
do evangelho que é bem presente no evangelicalismo brasileiro. O impressionante
é que tenho falado sempre sobre esse tipo de comportamento, mas parece que não
entra na cabeça. As pessoas continuam olhando para sua obediência a Deus como
uma forma de se alcançar méritos e benefícios junto ao Pai.
Longe disto, a Palavra de Deus nos ensina que escolher o
caminho da obediência para que sejamos abençoados e a fim de termos vida (Dt
30). O intuito de Deus, quando revelou esse discurso por meio de Moisés era o
de mostrar ao povo que o único caminho possível era o da Aliança, ou Pacto.
O povo vivia num contexto no qual os termos da aliança
ditavam as regras de vida ou morte. Ainda hoje essa mesma aliança estabelece os
termos de nosso convívio com Deus. Como Igreja do Senhor, temos de confiar na
obra de Cristo e viver o evangelho segundo nos foi ensinado por ele, ou não
alcançaremos a vida. Perceba que são os mesmos termos, só que com a diferença
de que nossos irmãos do AT não entendiam que a vida só seria possibilitada pelo
Messias, que viria morrer inclusive pelos pecados daquele tempo (Rm 3.21-26).
Numa primeira olhada parece que o Senhor está nos ensinando
que a obediência nos leva às bênçãos que tanto desejamos. Contudo, perceba que
a questão é a vida, não coisas específicas que nosso coração espera tanto. O
caminho da obediência, isto é, do pacto, é o caminho da vida, portanto da
bênção. Por outro lado, a desobediência nos conduz à morte. Para que recebamos
os benefícios de Deus temos de estar em seus caminhos, portanto, na aliança,
isto é, cobertos pelos méritos de Cristo, para que sejamos abençodos.
O problema de tudo isso é o de acharmos que somos nós quem
decidimos que bênçãos são essas. A promessa do Senhor é de vida, não de casa,
carro, emprego, soluções. Somos tão mimados que só aceitamos se for
especificamente o que desejamos. No caso da ovelhinha acima, respondi de
pronto: - “Sua bênção, sua sem vergonha (não se espante, o povo já tá
acostumado comigo)!!! Sua bênção por não trabalhar no domingo foi a de ter
comunhão com seus irmãos, cultuar a Deus e ouvir a pregação da Palavra!”
Interessantemente, depois de muitos domingos trabalhados,
aquela irmã estava finalmente cultuando ao Pai com seus irmãos, e isso não lhe
foi uma bênção, ou algo que lhe fez sentir-se abençoada!! Penso que a razão
está justamente na compreensão do que é bênção e nas expectativas de um coração
ganancioso e não descansado nas coisas de Deus. Sabe? Aquela história de buscar
o Reino de Deus em primeiro lugar e a sua justiça? (Mt 6.33) Pois é, o fato é
que focamos nas demais coisas que serão acrescentadas, sem entender que essas
coisas são: comida e veste – conforme o discurso de Jesus.
Sem que queiramos admitir, estabelecemos um relacionamento
de troca com o Senhor – das bem mesquinhas -, quando pensamos que, por
obedecermos a um mandamento ou outro, somo merecedores de algo. Nisso,
julgamo-nos capazes de satisfazer a perfeição de Deus e que Jesus já não é tão
necessário assim. Como vemos em Romanos 6, nossa obediência, ou santidade, não
é um meio para alcançarmos méritos diante de Deus – somente Cristo consegue
fazer isso –, antes, agimos deste modo, para fazermos uma oferta de gratidão ao
Senhor, a fim de aproveitar os benefícios já entregues em Cristo a nós. Isso
significa que a bênção já veio, agora, resta viver de acordo com quem foi
abençoado com vida, conforme nos foi prometido em Deuteronômio 30.
Seja humilde, perceba sua imperfeição e não pense que sua
obediência é suficiente para convencer Deus de alguma coisa. Não seja tolo,
confie na obediência de Cristo para estabelecer uma relação abençoadora com o
Criador. Não seja ingrato, obedeça como uma oferta de gratidão àquele que já
lhe deu VIDA. Não seja mesquinho, sinta-se satisfeito com salvação e pare de
olhar para as vaidades (vaidade biblicamente é sinônimo do que passageiro,
efêmero) desta vida. Por último, sinta-se abençoado por poder cultuar na
companhia de seus irmãos. Não barganhe com Deus.
A liberdade é um desejo de todo ser humano; tal fato pode ser verificado por toda a história. Vemos povos lutando para se verem libertos de seus algozes. Homens lutando pela simples liberdade de serem negros, como na luta contra o Aparthaide na África do Sul. Por outro lado, a luta pela liberdade de hoje está longe de todas essas questões legítimas. O que vemos é um homem que luta por um tipo de liberdade mais individual.
Podemos exemplificar essa liberdade individual através da contínua quebra de tabus de nossos dias. O constante questionamento dos padrões e o esforço de muitos de fazerem aceitáveis seus padrões e vontades, tem levado a sociedade a tolerar comportamentos e conceitos anteriormente marginalizados. O homossexualismo, o bissexualismo, o sadomasoquismo, o sexo antes do casamento, a virgindade como uma questão sem importância, a legalização de drogas, góticos, emos, grunges, punks, budistas, thaoistas, xintoístas, católicos, católicos carismáticos, pentecostais, neopentecostais, tradicionais, protestantes, casuais, patricinhas, mauricinhos, todos esses grupos, como muitos outros, mostram a variedade de possibilidades de comportamentos e tribos com que se pode conviver. Tudo em nome da liberdade de pensamento ou comportamento.
Contudo, quando falamos de liberdade em termos bíblicos, não podemos pensar na liberdade almejada pelo mundo, que é a de fazer tudo o que se deseja. Na verdade, essa é uma boa forma de resumirmos o anseio do mundo: fazer o que quer que seja para satisfazer-se. Por outro lado, a liberdade a qual descreve a Bíblia não tem a ver com a possibilidade de se fazer tudo que se tem vontade, mas, sim, de vermos nossa vontade livre do pecado. Contrastando com a vontade deste mundo caído de sempre dar vazão aos impulsos caídos, as Escrituras nos mostram que tal “liberdade”, de fato, é a prisão que o homem vive de sempre pecar, de sempre buscar o que é errado. Não há possibilidade ao homem caído de buscar o que é santo.
Biblicamente falando, liberdade significa ver nossa existência livre do pecado. Seus efeitos sobre nossa vontade não nos permite viver de modo agradável ao nosso Criador, sempre nos movendo para longe dele. Em Cristo, experimentamos o que chamamos de liberdade cristã, e esta é oportunamente bem descrita na Confissão de Fé de Westminster, no capítulo XX, seção I:
A liberdade que Cristo, sob o evangelho, granjeou para os crentes, consiste em serem eles libertos da culpa do pecado, da ira condenatória de Deus, da maldição da lei moral; e em serem eles libertos deste presente mundo mau, da escravidão a Satanás e do domínio do pecado, da nocividade das aflições, do aguilhão da morte, da vitória da sepultura e da condenação eterna; bem como em terem eles livre acesso a Deus, em lhe prestarem obediência, não movidos de um medo servil, mas de amor filial e de espírito voluntário. Tudo isso era comum também aos crentes sob a lei; mas, sob o Novo Testamento, a liberdade dos cristãos é muito mais ampla, estando eles livres do jugo da lei cerimonial, à qual estava sujeita a igreja judaica, e tendo mais ousadia em seu acesso ao trono da graça e mais plenas comunicações do gracioso Espírito de Deus do que ordinariamente participavam os crentes sob a lei. (Cf. Tt2.14; 1Ts 1.10; Gl 3.13; Rm 6.14, 8.28; 1Co 15.54-57; Rm 5.12, 8.14,15; 1Jo 4.18; Gl 4.1-7; Hb 4.14,16, 10.19-22; 2Co 3.13,17,18)[1]
Muitos pensam que a CFW é algo retrógrado e desnecessário, mas prefiro ver que seu valor ainda é verdadeiro até para o jovem. Veja que em poucas e precisas palavras, temos uma definição bíblica da liberdade que deve ser buscada pelo Cristão. Veja que de uma escravidão de se buscar continuamente a satisfação de uma natureza pecaminosa, somos libertos para vivermos a possibilidade de satisfazer a vontade do Criador. Liberdade cristã trata-se de nos vermos livres do pecado e de seus efeitos. Efeitos esses que afetaram nossa natureza, portanto nossa vontade; nossa relação com Deus, com o próximo e com as coisas. Vendo por esse lado, entendemos que o mundo tem uma pretensa liberdade que, na verdade, é a prisão de sua vontade a todo tipo de impulso e desejo que deformam a imagem de Deus em nós, nos tornando menos humanos.
Fora de Cristo o que se tem é um homem dominado pelo sexo, dinheiro, bens e pela ilusão de que a satisfação pessoal é sinônimo de liberdade. A questão, porém, é que cristãos tem secularizado o entendimento da liberdade Cristã e procurado mais a satisfação pessoal do que levar uma vida que satisfaça a Deus. Ao invés de levarem uma vida livre do pecado, que destrói e corrompe, muitos membros de igreja tem buscado uma vida compatível com seus impulsos pecaminosos. É nesse momento que vemos que a liberdade passou a ser libertinagem.
A relativização da moral vista no mundo já tem tomado conta de nossas igrejas. Jovens cristãos não só tem tornado os pecados sexuais parte de suas vidas, como já buscam argumentos para justificá-los; mais do que justificá-los, eles já nem os consideram mais pecado. O pregador indiano, erradicado nos Estados Unidos, Ravi Zacarias, diz que em nosso tempo não se cobra mais que se aceite todo tipo de comportamento, mas que se celebre tais comportamentos – e como vemos crentes celebrando o que desagrada a Deus com suas atitudes. O mais triste é que muitos criaram um evangelho onde a consciência é o guia e a liberdade é a grande bênção. No entanto, essa consciência não é guiada pela Palavra de Deus, tão pouco essa liberdade tem a ver com a retirada do peso do pecado de sobre nós.
Esse triste quadro é o retrato da liberdade na mente do mundo e de muitos cristãos. Tal quadro revela o desconhecimento dos efeitos devastadores do pecado na existência humana. Todos os aspectos de nossa existência foram afetados, sendo corrompidos e destituídos da glória de seu Criador. Se todos nós soubéssemos que o pecado não parou de matar quando fez sua primeira vítima no Éden, não daríamos tanta vazão a seus impulsos, desejos e vontades corrompidos.
O triste resultado de tudo isso é que jovens que um dia se disseram servos de Cristo, hoje abusam da liberdade conquistada na cruz. Mais do que isso, sem se aperceberam, são escravizados pelo pecado. Enquanto o sonho de muitos adolescentes é o de se verem livres de seus pais para fazerem tudo o que querem, o plano de Deus foi o de nos livrar do pecado através de seu Filho, para que fizéssemos o que o Senhor requer de nós. Por outro lado, o sonho de liberdade dos jovens crentes tem se distanciado dos planos de santidade de Deus e se adequado mais ao modo de vida do mundo, aprisionando cristãos a ideais puramente voltados para o prazer.
A busca da liberdade do mundo tem sido para dar vazão aos impulsos sexuais e aos desejos por posses. Infelizmente isso tem sido uma prisão para muitos cristãos que se envolvem com pornografia, adultério, homossexualidade, ganância e etc. A crise entre o ser o ter, antes dita ser a crise do mundo, agora é a crise de jovens cristãos que deveriam viver uma vida livre dos ideais de um mundo de visão míope e que não tem mais nada a perseguir além da satisfação pessoal.
A liberdade que Jesus conquistou para nós nos leva à verdadeira vida. Enquanto muitos estão buscando uma vida que atendam seus próprios ideais - o que torna a imagem acima uma realidade em suas vidas -, o cristão deveria buscar livrar-se de tudo aquilo que o impede de viver a verdadeira vida. Essa vai muito além do que podemos conseguir nesse mundo. Nesse sentido, a questão é muito simples; nós, como servos de Deus, sabedores de que fomos por ele criado, temos de ter a consciência de que nossa existência só faz sentido e é verdadeiramente livre, quando dedicamos tudo que somos e temos àquele que é a fonte de tudo isso. Liberdade, portanto, não é uma questão de status, mas existencial, algo que é real para aquele que existe na forma mais plena de todas, aquela que compreende o que está em Romanos 11.36: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.”
[1] HODGE, Alexander A., Confissão de fé de Westminster comentada. São Paulo: Os Puritanos, 1999, p. 350.
No último dia 12 nós presbiterianos comemoramos os 152 anos da chegada de Simonton. Vindo dos Estados Unidos e aportando no Rio de Janeiro, esse missionário deixou um legado que se espalhou por todo o país e já dura todo esse tempo. Fomos a primeira denominação a se estabelecer no Brasil e nossa história monstra, além de Ashbel Green Simonton, muitos outros missionários que demonstraram seu valor ao lutarem pela pregação do evangelho.
Como exemplo desses homens abnegados até a morte, podemos citar José Manoel da Conceição. Este homem foi o primeiro pastor brasileiro ordenado. Ex padre, teve um ministério itinerante e pregou o evangelho contando com o abrigo dado por aqueles que aceitavam seu trabalho como pagamento. Morreu sozinho no Rio de Janeiro, numa noite de natal, sem glórias, agradecimentos ou honras.
Poderia citar outras personagens dessa história, homens e mulheres que não procuraram honra própria, mas o espírito visto em José Manoel da Conceição é suficiente para entendermos um legado digno é fundamentado no amor abnegado pelo evangelho, não pela honra pessoal.
Um texto bíblico me vem à mente nessa hora:
“Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.” (Fl 2.3-8)
Ao contrário do que muitos fazem em seus ministérios, JMC, Simonton e outros evangelistas de tantas outras denominações históricas, desejaram ver a glória de Deus através das conversões, não do sucesso financeiro de suas igrejas. Sucesso para esses crentes não se referia à quantas multidões eram atraídas aos seus cultos, mas a quantos eles conseguiam apresentar o evangelho. Infelizmente, os tempos mudaram e o foco de muitos obreiros que não se parecem em nada – e, pelo visto, não querem nada – com o ministério desses homens, que se assemelhava ao de Paulo.
Em 2 Coríntios 11 vemos Paulo defendendo sua autoridade apostólica. Interessantemente, ele o faz contra pessoas que se diziam apóstolos e que, pelo o que o texto indica, esses homens se valiam de muita pompa e ousadia, ao ponto até de esbofetear os membros da igreja. A igreja, aparentemente, se deixava levar por tudo isso e dava mais ouvidos a estes cheios de honras pessoais, que ao apóstolo Paulo em sua simplicidade e espírito de servidão.
“Quisera eu me suportásseis um pouco mais na minha loucura. Suportai-me, pois. Porque zelo por vós com zelo de Deus; visto que vos tenho preparado para vos apresentar como virgem pura a um só esposo, que é Cristo. Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo. Se, na verdade, vindo alguém, prega outro Jesus que não temos pregado, ou se aceitais espírito diferente que não tendes recebido, ou evangelho diferente que não tendes abraçado, a esse, de boa mente, o tolerais. Porque suponho em nada ter sido inferior a esses tais apóstolos. E, embora seja falto no falar, não o sou no conhecimento; mas, em tudo e por todos os modos, vos temos feito conhecer isto. Cometi eu, porventura, algum pecado pelo fato de viver humildemente, para que fôsseis vós exaltados, visto que gratuitamente vos anunciei o evangelho de Deus? Despojei outras igrejas, recebendo salário, para vos poder servir, e, estando entre vós, ao passar privações, não me fiz pesado a ninguém; pois os irmãos, quando vieram da Macedônia, supriram o que me faltava; e, em tudo, me guardei e me guardarei de vos ser pesado.A verdade de Cristo está em mim; por isso, não me será tirada esta glória nas regiões da Acaia. Por que razão? É porque não vos amo? Deus o sabe. Mas o que faço e farei é para cortar ocasião àqueles que a buscam com o intuito de serem considerados iguais a nós, naquilo em que se gloriam. Porque os tais são falsos apóstolos, obreiros fraudulentos, transformando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformem em ministros de justiça; e o fim deles será conforme as suas obras. Outra vez digo: ninguém me considere insensato; todavia, se o pensais, recebei-me como insensato, para que também me glorie um pouco. O que falo, não o falo segundo o Senhor, e sim como por loucura, nesta confiança de gloriar-me. E, posto que muitos se gloriam segundo a carne, também eu me gloriarei. Porque, sendo vós sensatos, de boa mente tolerais os insensatos. Tolerais quem vos escravize, quem vos devore, quem vos detenha, quem se exalte, quem vos esbofeteie no rosto. Ingloriamente o confesso, como se fôramos fracos. Mas, naquilo em que qualquer tem ousadia (com insensatez o afirmo), também eu a tenho. São hebreus? Também eu. São israelitas? Também eu. São da descendência de Abraão? Também eu. São ministros de Cristo? (Falo como fora de mim.) Eu ainda mais: em trabalhos, muito mais; muito mais em prisões; em açoites, sem medida; em perigos de morte, muitas vezes. Cinco vezes recebi dos judeus uma quarentena de açoites menos um; fui três vezes fustigado com varas; uma vez, apedrejado; em naufrágio, três vezes; uma noite e um dia passei na voragem do mar; em jornadas, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de salteadores, em perigos entre patrícios, em perigos entre gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre falsos irmãos; em trabalhos e fadigas, em vigílias, muitas vezes; em fome e sede, em jejuns, muitas vezes; em frio e nudez. Além das coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente, a preocupação com todas as igrejas. Quem enfraquece, que também eu não enfraqueça? Quem se escandaliza, que eu não me inflame? Se tenho de gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza.” (2Co 11.1-30)
O texto é longo mas diz tanto sobre a simplicidade e o sofrimento de Paulo em seu ministério, que é melhor que qualquer palavra minha para comparar com o que é feito pelos apóstolos pós-modernos. Estes não gostam de lutas, dificuldades, ou sofrer por causa do evangelho. Perceba pela descrição de Paulo, que os apóstolos atuais se parecem mais com os falsos apóstolos daquele tempo, que com um apóstolo verdadeiro como Paulo. Longe de sofrer por Cristo, Rene Terra Nova, Valdomiro Santiago, Estavam Hernandes e outros, gostam da honra, do sucesso, carros importados, ganhos astronômicos e afins. Mas o pior é que a falta de um fundamento histórico de homens dedicados ao evangelho – às vezes por opção – tem feito com que crentes aceitem submeter-se à magnatas do evangelicalismo, que dominam, impressionam com pompa, gostam de capas, shows da fé e de dominar a fé de seus seguidores.
Como fruto de um trabalho que dura 152 anos, só tenho o que agradecer a Deus. Entre acertos e erros, a fidelidade à Palavra e o amor ao próximo e a Deus, acima de tudo, tem demonstrado que o evangelho tem muito mais a ver com a simplicidade do fazedor de tendas que não queria ser pesado à igreja do que com a pompa daqueles que guiam suas igrejas ao sabor das finanças. Por outro lado, vemos ditos pastores, bispos e apóstolos darem de ombros à simplicidade e criarem teologias de honra e sucesso, que os favorecem de modo criminoso e diabólico. Mas, infelizmente, nem os avisos de Jesus de que nem todos que dizem ter profetizado e expulsado demônios em seu nome de fato são seus (Mt 7.22,23), tem sido suficiente para acautelar os crentes desses mercadejandores do evangelho.
Vemos cenas grotescas de pessoas jogando dinheiro aos pés de seus líderes (veja o vídeo) e desculpas esfarrapadas para justificarem tais atitudes. Vemos comportamentos que beiram a demência com o rótulo de espiritualidade. Como pastor de uma igreja histórica, tenho visto um movimento em direção à igrejas que buscam mais o Espírito da Palavra (via de regra as históricas) que esse espírito estranho que faz com que pessoas engatinhem imitando leão, rodopiem como um pião ou dancem como se estivesse num roda de umbanda.
A IPB pode ser a mais antiga denominação do Brasil, mas temos outras denominações históricas que podem acompanhar a IPB, a fim de demonstrar que a glória de Deus se vale de seu poder em transformar um pecador num servo, e não pecadores em figurões gospel.
Sou pastor presbiteriano, casado com Vanessa, brasiliense, mas moro na grande São Paulo desde 98. Sou Flamenguista, bem humorado e um crítico ferrenho do povo brasileiro.
Encontre-me também no facebook, e faça parte do grupo da Igreja Presbiteriana do Brasil.