quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Mundo hostil


O Senhor havia prometido ao homem que sua vida, a partir do pecado, seria penosa. O ambiente acolhedor e provedor, na verdade, era fruto da bondade provedora divina. Ele não habitava o Éden, de fato, mas em Deus. Seu refúgio existencial era o Criador, e a expressão dessa habitação era o Éden: cheio da providência, bondade e abundância. O homem, contudo, decidiu sair deste abrigo e passaria a habitar um ambiente hostil, cheio de dores, dúvidas e, o pior, distante do Criador.
O homem está desabrigado. Jogado ao relento da vida, vê sua relação com Deus ser intermediada por ofertas (Gn 4.3-7) e o pecado se multiplicar. É a promessa divina se cumprindo (Gn 2.17) e o homem, experimentando os efeitos da morte espiritual, vê a hostilidade do ambiente, o trabalho numa terra caída, afetada de modo que representa a forma da relação da criatura com seu Criador.
O homem passa a habitar[1] em ídolos, refugiar-se longe de seu Senhor. Passa a ver deuses no ambiente e a amar os produtos desse ambiente, depositando sua esperança em ídolos feitos por mãos humanas, crendo em uma visão de mundo fundamentada nesses ídolos inúteis, envolvendo-se em tão profundo afeto com esses ídolos, que o homem caído torna-se como eles. (Salmo 115).
O homem precisa, desesperadamente, “re-habitar” em Deus. Criado à imagem de Deus, é sendo como é seu Criador que homem encontra seu lugar. O verdadeiro Deus não habita onde o homem o coloca, mas, de fato, é o homem que nele existe e se move (At 17.24-28). O evangelho é a notícia de que há um caminho para o homem retornar ao lar. O Filho de Deus encarnou, viveu e morreu em um ambiente caído, porém, viveu conforme a lei do Criador, esperançou na vontade de Deus e amou ao Pai sobre todas as coisas.
Cristo no ensina a habitar em Deus. Paulo escreveu que o propósito de Deus para os eleitos é que estes sejam feitos à imagem do Filho, de modo que este seja o primogênito entre muitos irmãos (Rm 8.29). Isso significa que, o homem deve aprender de Cristo o que é viver e ser, aprendendo que esse mundo não oferece um habitat adequado, pois ele mesmo geme e suporta angústias, enquanto a obra de redenção não é terminada (Rm 8.18-22). Em Cristo o homem é reconduzido a Deus e neste o homem vê seu habitat redimido e refletindo novamente a provisão e abundância do Criador.




[1] Para maior aprofundamento sobre o assunto da habitação, ver GOMES, Wadislau Martins, Aconselhamento bíblico redentivo. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Materialismo e evangelicalismo brasileiro, o problema não é só dinheiro




Sumário


Introdução

A literatura evangélica aborda o tema do materialismo de forma reducionista, fazendo deste um sinônimo de amor ao dinheiro. O conselheiro bíblico, Paul Tripp, em seu livro, Sexo e Dinheiro, prazeres que desapontam e a graça que satisfaz, (2014), falando da insanidade da sociedade atual, na qual crianças já são expostas a formas erradas de sexualidade e questões financeiras, afirma que elas “aprendem os prazeres do materialismo antes mesmo que possam calcular para saber se podem gastar.” (p. 18) Mais adiante, falando sobre seu contato com um casal que gastava demais, Tripp descreve seu encontro com eles: “Quando os conheci, sua casa de sonhos materialistas e auto-orientados, tinha começado a desmoronar. […] Eles pareciam quase incapazes de segurar seu dinheiro”. (Tripp, 2014, pg. 139).
Na Internet também é possível observar a forma reducionista de se entender o materialismo. Uma simples pesquisa utilizando os termos “materialismo cristão”, resulta em diversos textos que falam do amor ao dinheiro. Assim ocorre com José Jamê Nobre, Materialismo na Igreja (?), com Sammy Tippit, numa devocional intitulada Vitória sobre o materialismo (?), com o blogueiro Marcos Aurélio  Melo, em seu texto A escravidão ao materialismo, que define o materialismo como “a excessiva busca por coisas materiais que sufoca a nossa comunhão com Cristo.” (2012) Ainda que esses autores não sejam referências no meio cristão, são exemplo de como o materialismo é pouco abordado em sua fundamentação filosófica, conduzindo o evangelicalismo a não ter noção exata do problema.
O materialismo em sua origem filosófica vai além do dinheiro. Mais do que isso, o materialismo mostrou-se uma cosmovisão em sua elaboração nos filósofos gregos antigos, e em sua “emancipação” da teologia no século XVIII. O amor ao dinheiro está, sim, ligado ao materialismo, porém, não o representa por completo. Trazer uma definição mais fiel dessa ideologia pode ajudar a identificar melhor sua presença no pensamento, ou teologia, e nas práticas das igrejas evangélicas brasileiras.
Em sua origem, o materialismo trata-se de uma cosmovisão que visa enxergar o mundo sem Deus, ou explicações teleológicas. Segundo o blog Materialismo-Filosofia, essa forma de pensamento iniciou-se com Tales de Mileto, sendo este o primeiro geólogo, ao oferecer uma explicação sobre os terremotos que se afastava dos mitos de seu tempo. Tales teria explicado que a terra flutua em água e o movimento desta causava os tremores. (CASAGRANDE; FISHUK, 2013). Conforme coloca Nancy Pearcey, conferencista internacional:
Na realidade, já nos tempos antigos, Epicuro traçara de forma minuciosa uma cosmovisão completa com base no materialismo. Em primeiro lugar, se a matéria é tudo que existe, então devemos ser empíricos: o conhecimento é limitado ao que sabemos pelos sentidos (átomos que impingem nossos órgãos do sentido). Em segundo lugar, a moralidade também deve estar baseada nos sentidos: o bem e o mal são definidos pelas sensações de prazer e dor. (PEARCEY, 2011, p. 437-438)

Nesta passagem fica clara uma consequência direta do pensamento materialista sobre o ser humano. A moralidade é relativa a seu prazer e não mais a um ser superior. O cristão que mede certo e errado ou os caminhos de sua espiritualidade segundo o prazer que isso lhe traz, está sendo materialista. Ronald Nash, filósofo cristão, também destacou o empirismo materialista, conforme fez Pearcy, por meio do qual o homem depreende todo conhecimento, ou seja, conhecimento é fruto das sensações que a matéria causa nos sentidos humanos. (NASH, 2008, p. 52) A ênfase de muitos segmentos cristãos na experiência pessoal com Deus, enfatizando sensações, visões, expressões corporais, evidencia o espírito empírico do materialismo.
O filósofo cristão, Herman Dooyeweerd, destacou que a igreja não saiu imune ao materialismo. Focando pelo lado científico, ele argumentou que o Iluminismo fez do método científico racionalista influenciou a sociedade a uma visão individualizada, ou das partes. Na vida da igreja, o modernismo tomou os púlpitos e a pregação não mais era uma exposição do evangelho, mas um racionalismo que esvaziava o sentido do texto bíblico, a fim de atender as descobertas científicas. (Cf. DOOYEWEERD, 2015, p. 125). O matemático e filósofo William A. Dembski e o pesquisador Jonathan Witt, falam de como o cientificismo fizeram do materialismo a principal cosmovisão da sociedade atual:
No início do século atual, o veneno do materialismo darwinista tinha se espalhado da alta cultura para a popular. Agora comerciais de Sprite nos dizem para obedecer nossa sede. Canções nos exortam a fazer sexo como os animais, porque, bem, isso é tudo o que somos: animais. E os terapeutas nos dizem para buscar a nossa felicidade, mesmo que isso signifique descartar nossos cônjuges e filhos e fugir com qualquer um, tudo porque, num mundo sem Deus, cada um de nós deve definir por nós mesmos o que é bom e certo, e deixar que os outros façam o mesmo. (2012, p. 92)

Diante disso, uma investigação que vise identificar o pensamento materialista filosófico nas igrejas evangélicas do Brasil, pode ser de grande valia. Isso ajudará a identificar não só as influências, mas aspectos da fé ou prática evangélicas que contrariam as próprias fundamentações bíblicas, tidas como centrais ao evangelicalismo brasileiro – pelo menos, em sua maioria.
No que se refere ao materialismo, as obras de Epicuro, estando entre as primeiras materialistas, são o ponto inicial. Karl Marx, com sua visão materialista da história e sua dialética materialista, também se mostra importante para a compreensão do materialismo e sua dominância na visão atual de mundo, destacando sua obra Manifesto comunista, na qual ele lança as bases das lutas de classes, poder e dinheiro, como uma resposta à opressão da classe trabalhadora, tão presente na história humana.
Friedrich Nietzsche também é um importante expoente do pensamento materialista. Desenvolveu o niilismo e atendia a realidade de forma restrita, objetiva e pessoal, no sentido de que cada um deveria buscar seu próprio prazer, pois é tudo que se tem na curta existência humana. Ao que parece, a forma de agir de muitas igrejas já não contempla mais uma promessa futura, mas realizações e satisfações aqui e agora, dignas de um niilista.
A sede pelo prazer niilista é semelhante à sede de lucro capitalista. Esta também será abordada, a fim de se avaliar a presença do materialismo voltado para uma noção de prosperidade associada ao consumo, acúmulo de bens e de imagem de sucesso financeiro.
Este trabalho, portanto, propõe-se a pesquisar material bibliográfico e em vídeo. Devido o tema ser de cunho teórico, ou ainda uma avaliação teórica de determinadas práticas do meio evangélico brasileiro, todo material produzido por este meio pode servir de fonte.
Diante disto, os livros são a primeira fonte de pesquisa. O materialismo produziu grandes obras na história. Por sua vez, grandes líderes evangélicos expõem suas bases teóricas abertamente na Internet. Desta forma, consultar a produção virtual destes líderes constitui-se em passo obrigatório. A Internet é importante meio de comunicação usado por todos os grupos sociais. Praticamente todas as denominações brasileiras possuem sites, blogs, perfis em redes sociais, para publicação de textos e vídeos de suas atividades, o que faz deste meio uma importante fonte de pesquisa e principalmente, são, via de regra, mais atuais.
Quanto à primeira parte desta pesquisa, que visa definir o evangelicalismo e os limites desta pesquisa. Posteriormente, será feita uma definição do materialismo de Epicuro, Marx, Nietzsche e o capitalismo, a fim de trabalhar entre as formas mais influentes de materialismo. Livros, textos da Internet e periódicos que tratem do materialismo, seja do ponto de vista da história da filosofia, ou mesmo de sua presença no cenário atual.
Posteriormente, a pesquisa procurará sinais de que essas formas de materialismo se encontram na igreja evangélica brasileira. A hipótese para este trabalho é a de que o materialismo está ligado à forma individualista, experiencial e palpável de fé, constantemente pregada em diversos segmentos do evangelicalismo brasileiro. Ainda que se diga que o misticismo e a superstição sejam os elementos centrais da prática evangélica brasileira, a forma pessoal, sensorial e o apelo ao que é palpável é fruto da cosmovisão empirista materialista.
Portanto, o que se investigará aqui é: O materialismo filosófico está presente no evangelicalismo brasileiro? Não é objetivo avaliar o que isso significa, as consequências, benefícios ou malefícios. A simples identificação da presença ou não de alguma forma de materialismo, por si só, é válido, para que a igreja faça uma autocrítica e perceba-se como parte da sociedade e que não é livre de influências, mesmo as externas.
Este trabalho tem por objetivo central identificar melhor a presença do materialismo no evangelicalismo brasileiro. Especificamente, definir de forma mais profunda o materialismo, para melhor identificá-lo como corrente filosófica, assim como sua influência no evangelicalismo brasileiro. Abordar textos, livros, artigos e vídeos disponíveis, que demonstrem ou afastem uma influencia profunda do materialismo filosófico no pensamento evangélico brasileiro.



1. Evangelicalismo

Para que se estabeleça uma análise para o presente trabalho, é necessária uma definição do evangelicalismo. Contudo, essa é uma tarefa difícil, conforme apontou George M. Marsden, pois não se trata de uma denominação específica, ou igreja com membresia, mas um movimento (2000, p. 1-2). Por isso, uma definição se faz necessária, a fim de se estabelecer o escopo deste trabalho.

1.1. Definição

Segundo Marsden, o evangelicalismo britânico e norte-americano é fruto do reavivamento dos séculos XVIII e XIX (Ibid., p. 2). No mesmo lugar, esse autor afirma ser o foco do movimento evangélico a pregação da obra salvadora de Cristo por sua morte e a necessidade de confiança nesta obra, bem como um estilo de pregação mais empolgada. Por serem estes pontos perfeitamente protestantes, a abrangência do movimento evangélico alcança todas as denominações americanas.
Devido à abrangência do pensamento evangélico, Mardsen entende que:
evangelicalismo hoje inclui quaisquer cristãos tradicionais o suficiente para afirmar as crenças básicas do velho consenso evangélico do século XIX […]: (1) a doutrina Reformada da autoridade final da Bíblia, (2) o caráter histórico real da obra de salvação de Deus registrada na Escritura, (3) salvação para vida eterna baseada na obra redentiva de Cristo, (4) a importância do evangelismo e missões e (5) a importância de uma transformação de vida espiritual. (Ibid., pp.  4-5)

Por sua vez, o Bispo Robson Cavalcanti, em seu artigo, As origens do evangelicalismo, fez a seguinte colocação:
Em sendo assim, é bom lembrar que: 1) o evangelicalismo tem origem na Grã-Bretanha e não nos Estados Unidos da América; 2) o evangelicalismo tem origem no anglicanismo e não nas igrejas livres; 3) o evangelicalismo original tinha forte consciência social e política; 4) por sua base em universidades como Cambridge e Oxford, o evangelicalismo sempre foi compatível com a excelência acadêmica; 5) o evangelicalismo das igrejas históricas litúrgicas (anglicanos e luteranos) se expressam — com simplicidade e criatividade — no marco da liturgia de suas igrejas, não compartilhando do excessivo espontaneísmo cultural dos evangélicos de outras igrejas; 6) o evangelicalismo de origem europeia, particularmente o das igrejas históricas litúrgicas, se distancia do legalismo e do excessivo moralismo dos evangélicos (e fundamentalistas) de outras igrejas, demarcando uma nítida diferença na área de usos e costumes; 7) o evangelicalismo das igrejas históricas litúrgicas tem participado, de modo afirmativo, do movimento ecumênico, não comungando do separatismo nem do sectarismo encontrados em outros círculos evangélicos (e fundamentalistas); 8) o fundamentalismo (fraco na Grã-Bretanha e forte nos Estados Unidos) surgiu, 100 anos depois, como expressão localizada e extremada do evangelicalismo, e não o evange-licalismo como expressão moderada do fundamentalismo; 9) o que se conhece como “evangelicalismo” no Sul dos Estados Unidos e na América Latina na verdade não é evangelicalismo, mas fundamentalismo. Esse é o cenário majoritário no Brasil hoje. (1998)

A conclusão de Cavalcanti parece ser muito mais uma defesa de sua posição como originadora do evangelicalismo, do que uma tentativa de se entender o movimento. Isso pode ser visto, se sua conclusão for comparada com a argumentação anterior. Nesta, ele descreve os pontos centrais do evangelicalismo inicial, na Grã-bretanha:
O evangelicalismo inglês, nos seus primórdios, foi marcado pelo compromisso com a Bíblia como Palavra de Deus, a confessionalidade credal, a disciplina pessoal, a piedade, o amor aos necessitados, o zelo evangelístico e a denúncia contra a decadência de costumes. (1998) 

Enquanto a descrição aponta para a fidelidade bíblica, sua conclusão aponta para o ecumenismo. Este, por sua vez, exige, por natureza, fidelidade ao ideal de companheirismo, ou de união e não aos dogmas, doutrinas, menos ainda para verdades absolutas. Cavalcanti pareceu mais dedicado em dar um lugar proeminente ao Anglicanismo.

Ao que parece, seguindo a afirmação de Marsden, evangelicalismo é um movimento e, como tal, é abrangente. Não está encarcerado por cercas denominacionais e, portanto, não pode ser caracterizado pelo que há em comum entre as denominações participantes.

Champlin apontou um caminho mais próximo do que defendeu Marsden. Segundo ele, evangelicalismo referiu-se, em princípio, a todo escopo de igrejas protestantes, ou aquelas que diziam retornar ao evangelho, em contraposição ao catolicismo (CHAMPLIN, 2001, p.  605). Adiante, Champlin faz um apanhado do caráter do evangélico. Segundo ele, este grupo se caracteriza pela preocupação com a salvação da alma, indo além do aspecto social, focando a necessidade da missão salvífica da igreja, bem como no poder de Cristo sobre a vida de seus discípulos. (Ibid, p.  606)

Parece ser claro que a definição é difícil e que a melhor opção é um entendimento abrangente. Portanto, o evangelicalismo será aqui tomado como um segmento cristão, diferente do catolicismo, que crê na Bíblia como palavra de Deus e declara crer na salvação do homem pela obra de Cristo. Como é parte do movimento a comunhão entre igrejas de diferentes denominações, que compartilham e enxergam pontos em comum – algo que pode ser visto largamente até os dias de hoje na presença de pregadores em denominações diferentes das suas –, não serão consideradas nesses estudos as igrejas sectárias, ou seja, aquelas que não aceitam outras denominações como “igrejas irmãs”: Congregação Cristã e Testemunhas de Jeová, por exemplo.

O foco estará sobre igrejas pentecostais e neopentecostais, como Assembleia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus. Também igrejas históricas conservadoras, como Presbiterianos, Metodistas e Batistas. Todos, porém, dentro da definição de evangelicalismo.

1.2. Evangelicalismo brasileiro

Olhando para o cenário brasileiro e a definição acima, pode-se incluir muitas igrejas no cenário evangélico brasileiro. No site da editora Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), reconhecida editora ligada às Igrejas Assembleias de Deus, por meio da Convenção Geral das Assembleias de Deus (CGAD), publica em seu site o seguinte trecho: “Tendo a Bíblia como a sua única regra de fé e prática, a confissão das Assembleias de Deus realça a salvação pela crença no sacrifício vicário de Cristo, a atualidade do batismo no Espírito Santo e dos dons espirituais e a esperança na segunda vinda do Senhor Jesus.” (CGAD, ?)
A Igreja Universal de Deus (IURD) publica em sua página na Internet, na seção O que cremos, sua profissão de fé. Ali, os elementos centrais do evangelicalismo são vistos. O texto afirma crença na trindade, na queda do homem, na salvação por meio de Jesus, na Escritura como a Palavra de Deus, nos sacramentos e em um relacionamento pessoal com Deus (IURD, ?).
A Igreja Internacional da Graça de Deus, liderada por Romilson Ribeiro Soares (R. R. Soares), possui um site, porém, no mesmo não é facilmente encontrada qualquer declaração de fé, ou conteúdo das doutrinas de modo direto. Porém, há um curso, o Curso Fé, no qual R. R. Soares apresenta diversos pontos sobre sua doutrina. Aquilo que é mais valorizado, tanto no site, quanto nesse curso, é a doutrina da determinação. O curso mencionado visa elucidar essa doutrina. Nesse propósito, afirmações ajudam a reunir elementos da confissão de fé desta denominação.
Na primeira lição do estudo, Soares afirma: “todos creem que Jesus pagou um alto preço para nos resgatar” (SOARES, ?). Isso aponta para a salvação por meio de Cristo, em uma obra vicária. Na mesma lição, percebe-se que a fundamentação de fé e prática de Soares é a Bíblia. De fato, há diversas citações de textos bíblicos.
Nos vídeos e textos disponíveis no site da Igreja Mundial do Poder de Deus, também podem ser vistos os elementos básicos do evangelicalismo. Há vários textos que buscam suas bases na Bíblia e, mesmo que a ênfase da igreja seja na cura, a salvação em Cristo é mencionada como parte do que a igreja professa.
Ao longo do estudo, outras igrejas podem ser incluídas. Todas elas, porém, apresentando esse padrão. Todas terão a Bíblia como texto sagrado e falarão da salvação em Cristo.


2. Materialismo

O materialismo nasce na Grécia antiga. A filosofia em si nasceu materialista na Jônia (624-547 a.C.) com Tales de Mileto. Ele apresentou explicações sobre fenômenos da natureza que não apelassem para os deuses. “A filosofia surgiu, de fato, em oposição à carência de justificação racional dos mitos, conforme as crenças registradas nos poemas de Homero e Hesíodo.” (FISHUK, 2013) A filosofia surge como uma tentativa de se entender o mundo nele mesmo, sem voltar-se para os mitos e deuses.
Materialismo, portanto, é o mundo em si mesmo. No desenvolvimento desse pensamento, vários filósofos desenvolveram suas contribuições, construindo o pensamento materialista atual. Isso significa que, pensar em materialismo como sinônimo de amor ao dinheiro é deixar de lado séculos de história e de informações que auxiliam o entendimento de como o pensamento atual se formou.
Nesse sentido, muitos pensadores poderiam ser abordados aqui. Desde o próprio Tales de Mileto, passando por Pitágoras, Platão, Aristóteles, que não necessariamente eram descrentes quanto à existência de deuses, mas que buscavam explicações dentro da própria matéria, para os fenômenos naturais. Para este trabalho, selecionou-se quatro pensadores e uma forma de pensamento econômico, que apresentarão razões suficientes de sua relevância.
Epicuro com seu atomismo mostra-se relevante em sua teoria dos sentidos. Para ele, a realidade é percebida pelos sentidos do corpo, de modo que, só se pode conhecer aquilo que afeta algum sentido do corpo. Esse pensamento é uma forma de priorização das sensações, algo bem perceptível no meio evangélico, no qual se apela constantemente às sensações.
Karl Marx construiu uma visão do homem social chamada comunismo. Sua tese de doutorado foi sobre Epicuro. Deste, ele herdou a centralidade do bem estar humano, entendendo que o homem em sociedade deve ter tudo em sociedade e por igual. Pensou em termos antagônicos ao estabelecer a luta de classes, construindo um pensamento de que a necessidade humana é sanada nos bens de consumo, alcançados por todos com o domínio do proletariado dos meios de produção. A luta entre operário e burguês, no fim, é pelo material, pelo pensamento de que tudo que se tem da vida é o que se alcança pela produção. Esse pensamento também está ligado ao evangelicalismo brasileiro, como será visto.
Friedrich Nietzsche desenvolveu o niilismo. Nesse pensamento, o homem não tem nada além de seu prazer para se importar, pois não há mais nada na vida. Tudo está aqui. Não há Deus, moralidade é algo ilógico e ilusório. Para Nietzsche, o homem deve viver tudo aqui e agora, o que em muito se aproxima do pensamento de determinados grupos evangélicos, que parecem ter perdido a perspectiva da vida futura.
Por último, o capitalismo será abordado em sua lógica de mercado. Atender o cliente para vender mais, aproxima-se muito do que se vê no meio evangélico. Adaptações na mensagem e na prática da igreja se assemelham com as adaptações do mercado ao gosto do cliente. Por isso, uma abordagem dos fundamentos capitalista, pode revelar-se outro fator que aponte a presença do materialismo no evangelicalismo brasileiro.

2.1. Epicuro

Epicuro nasceu entre 342 e 341 a.C. em Samos. Foi para Atenas por volta de 321 a.C., onde fundou sua escola em 306 a.C. em sua casa. Em seu Testamento, deixou o jardim de sua casa “para todos os que assistam a filosofia em minha escola” (EPICURO, 1994, p. 3). Possivelmente, teve influências de Platão e Aristóteles, mas foram as descobertas do oriente e a escola peripatética de estudos naturais que muito contribuíram para sua visão de mundo. Junto com Demócrito – não por meio de uma parceria, necessariamente, mas com algum relacionamento –, desenvolveu a filosofia que estruturou o empirismo. (Cf. ibidem, p. XIV)
A realidade para Epicuro era fruto da matéria. Em sua carta a Heródoto ele afirmou: “Em primeiro lugar, nada nasce do que não existe, porque se tudo nascera de tudo (de si mesmo), não haveria necessidade de sementes.” (Epicuro, 1994, p. 9) Para ele o universo sempre foi e sempre será da forma como é, pois tudo que há está nele e nada há fora para causar alguma mudança. (Cf. Ibidem, p. 10) Adiante, Epicuro afirma que a existência dos corpos celestes é comprovada pelos sentidos. (loc. cit.) Para ele a percepção da realidade se dava por meio de emanações de átomos vindos dos objetos que se encontram com os sentidos humanos. (Cf. Ibidem, p.  15-16) Olavo de Carvalho colocou bem o pensamento de Epicuro:
Segundo Epicuro, o corpo é material, a alma também é material, e até os deuses são materiais – havendo apenas, entre estes três níveis de seres, a diferença de maior para menor densidade da dita “matéria”. Como tudo é material, só o que é material chega ao nosso conhecimento [...] pois aquilo que não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos. (CARVALHO, 2015, p.  56-57)

Sendo o conhecimento fruto da relação sentidos-sensações, causada pelo movimento dos átomos, Epicuro construiu seu conceito de felicidade nesses termos. Segundo ele, a felicidade consiste na compreensão, ou no “conhecimento da origem dos fenômenos que contemplamos no céu e em tudo o que a ele se refere, até alcançar uma ciência perfeita” (1994, p. 33). O conhecimento é segurança, entendimento, experiência, alcançada com o tempo. Epicuro, em suas Exortações, via grande vantagem do velho sobre o moço, pois o primeiro já possui com segurança os bens da vida, pelos quais o moço ainda luta, com dúvidas e mudanças constantes. (Ibidem, p. 78-79)
A felicidade, portanto, está na contemplação. Ir atrás de algo é ter necessidade e necessidade é sofrimento. O que se busca são as boas sensações, alcançadas quando se tem conhecimento mais profundo das coisas, ou maturidade. Olavo de Carvalho, mais uma vez, resumiu bem o pensamento de Epicuro sobre o bem supremo:
O prazer é o bem supremo, que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações, que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o modelo mais perfeito do ócio contemplativo, motivo pelo qual devemos admirá-los. (2015, p. 58)

Para uma vida de sensações, não é surpresa que a busca do prazer nas sensações seja o bem supremo. Numa visão materialista epicúrea, o objetivo da vida é buscar as melhores sensações e estas não estão na intensidade, mas em poderem ser vividas sem que isso gere as sensações ruins. Por isso, a contemplação é o objetivo, já que conhecer não gera grandes desdobramentos, como tantos outros prazeres da vida.
Em Epicuro, portanto, tem-se o homem voltado para si, para suas sensações. Para ele não havia mais nada, só o que se tem aqui, portanto, buscar o que aqui se pode ter é o sentido da vida, ainda que esse sentido não seja o de ter muito, como ele mesmo recomendou a Idomeneo (cf. Epicuro, 1994, p. 93). Sobre a singularidade da vida, disse em suas Exortações:
Nascemos uma vez, pois não é possível nascer duas vezes. E não é possível viver eternamente. Tu, ainda não sendo proprietário de tua manhã, pretende estender sua felicidade. Mas a vida se consome numa espera inútil, e a cada um de nós a surpresa da morte sem ter desfrutado da tranquilidade. (Ibidem, p. 78)

A vida é o que se tem aqui, o que se sente. Adiante, será avaliada a ligação deste pensamento com a igreja evangélica brasileira, a fim de se verificar a presença desta forma de materialismo em seu meio. Por agora, um salto na história é necessário, de Epicuro a Karl Marx.

2.2. Karl Marx

Dar esse salto na história do pensamento humano não é por acaso. Após o domínio cristão, séculos do pensamento humano foram dominados pela visão teológica e teleológica das coisas. O materialismo não se desenvolveu tanto, até seu resgate após o Renascentismo e Iluminismo.
Quanto a Marx, é interessante o fato de que ele desenvolveu sua tese de doutorado sobre Epicuro. A relação entre ambos é explicada por Olavo de Carvalho:
Marxismo e epicurismo parecem ir em direções opostas: este, fugido do mundo, para fechar-se no jardim com a comunidade dos eleitos;[1] aquele, para fora, para a ação coletiva que vai transformar o mundo. Mas é uma diferença de escala antes que de natureza: nos dois casos, trata-se de envolver seres humanos numa praxis absorvente e hipnótica, que os afastará para sempre da tentação da objetividade, não deixando margem para o recuo teorético e aprisionando todas as suas energias intelectuais num circuito fechado de autopersuasão retórica. [sic] (Carvalho, 2015, p. 139)

Isso significa que, para Marx, assim como para Epicuro, tudo que se tem está aqui e agora. O foco da vida está na materialidade da mesma, o que leva o homem a uma busca pelo que há aqui. No fim, o que muda é o objeto de busca e não a perspectiva, mas há um pragmatismo comum, de, simplesmente, buscar satisfação no material. Epicuro falava de mudança pessoal e Marx de mudanças sociais, mas tudo pelo relacionamento com a matéria.
Como delineou Eduardo Sucupira Filho, Marx é daquele segmento da filosofia que investiga o pensamento humano a partir das causas das transformações advindas da sociedade. (Cf. FILHO, 1991, p. 21-23) Diante da situação social de seu tempo, Karl Marx, desenvolve sua visão socioeconômica. O que Marx viu, foi que “a história de todas as sociedades que já existiram é a história de luta de classes.” (MARX, 2013, p. 9) Adiante ele acrescentou: “Nossa época – a época da burguesia – distingue-se contudo, por ter simplificado os antagonismos de classe. A sociedade divide-se cada vez mais em dois grandes campos inimigos, em duas classe que se opõem frontalmente: burguesia e proletariado.” (Ibidem, p. 10)
Na visão de Marx, portanto, a existência humana se estabelece numa relação dialética de o oprimido que se volta contra seu opressor, toma o domínio e tornar-se opressor. Não há intervenção divina ou objetivos com a história, apenas movimento. A lei, moralidade e religião são preconceitos burgueses, usados por esta burguesia, para esconderem seus interesses. (MARX, 2013, p. 27)
Em outro ponto, Marx classifica a religião como uma ilusão exploradora, substituída pela exploração aberta da burguesia. (Ibidem, p. 13) Essa visão reforça o materialismo marxista, que coloca a vida do homem no que há aqui. Conforme lembrou Gerard Berghoef: “Vamos apenas lembrar que Marx, bem conscientemente, optou pelo ateísmo e o fez para fundamentar a esperança humana para o futuro em uma inata e independente capacidade de autorredenção.” (BERGHOEF, 1984, p. 16, tradução nossa)
Para Marx, a religião cristã serve para manter o capital. O cristianismo serve ao interesse burguês de manter o proletariado como força de trabalho, isso é, um produtor de mercadorias, que se realiza no ideal de homem cristão. Ele escreveu:
Daí ser o cristianismo, com seu culto do homem abstrato, a forma de religião mais adequada para essa sociedade, notadamente em seu desenvolvimento burguês, o protestantismo, o deísmo etc. [...] O reflexo religioso do mundo real só pode desaparecer quando as condições práticas das atividades cotidianas do homem representem, normalmente, relações racionais claras entre os homens e entre estes e a natureza. [sic] (MARX, 2014, vol. I, p. 101)

Para Marx, então, a sociedade deveria superar a religião. A redenção do homem não está ligada a aspectos espirituais ou de seu relacionamento com Deus, mas de sua condição social. A espiritualidade mantém as coisas como são; o que a sociedade precisa, segundo ele, é de uma “base material, ou de uma série de condições materiais de existência, que por sua vez, só podem ser o resultado natural de um longo e penoso processo de desenvolvimento.” (Ibidem, p. 101)
Berghouf faz uma interessante avaliação da relação entre cristianismo e marxismo:
É uma forma de intelectualidade chique, de hoje em dia, procurar um pano de fundo comum entre Cristianismo e Marxismo. Marxistas parecem gratos em aceitar cooperação cristã em seus esquemas para a redenção social, enquanto alguns cristãos parecem pensar que é uma conquista ecumênica fazer peregrinações à correlata União Soviética, para encaixar a bíblia com o antolho marxista. Mas, para o próprio profeta, um hibrido “Cristianismo marxista” ou “Marxismo cristão” seria um vira-lata desprovido de força social.
Para o poderoso gênio de Karl Marx, a única mistura possível entre cristandade e seu materialismo dialético, seria um no qual o material atropelaria o espiritual. (BERGHOEF, 1984, p. 16, tradução nossa)

Diante disto, o resultado do pensamento marxista é de uma sociedade que se dedica ao material, como meio ideal de vida. Portanto, a presença do materialismo marxista no evangelicalismo brasileiro, deverá produzir correntes cristãs dedicas ao social, com ênfase reduzida no espiritual e promessas eternas, ou mesmo ausentes. Ao que prece, Marx endossaria as palavras de Berghouf:
As acusações contra o comunismo feitas de um ponto de vista religioso, filosófico e, geralmente, ideológico não merecem um exame sério. Será necessária uma profunda intuição para entender que as ideias, os pontos de vista e as concessões do homem, resumindo, a consciência do homem muda de acordo com as mudanças nas condições de sua existência material, nas suas relações sociais e na sua vida social? (Marx, 2013, p. 41)

Isso significa que, tanto Marx despreza a opinião religiosa – bem como outras –, como também tem parâmetros que desconsideram completamente o aspecto espiritual da sociedade. Tudo gira em torno do material, de modo que, a vida humana é aferida em termos de ser boa ou ruim, de acordo com sua existência material – esse é o ideal comunista. Segundo João Rodrigues, isso se dá porque, para Marx, “o valor das coisas é o trabalho socialmente empregado na produção das mesmas. Seguindo um pensamento linear, afirma que utilidades devem ser entregues àqueles que as produzem, aos trabalhadores, pelo preço de custo.” (RODRIGUES, 1965, p. 33)
De um materialismo social, esse trabalho segue para o materialismo individualista de Nietzsche. Ênfases diferentes, mas a mesma dependência do material.

2.3. Friedrich Nietzsche

Parece estranho tratar da presença do pensamento do filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, no evangelicalismo brasileiro. Isso porque, sendo ele de família de pastores, lutou contra a moral e a religião. Nas palavras de Marcelo Backes: “fez da moral e da religião o alvo de seus combates, considerando sua guerra pessoal contra ambas sua maior vitória.” (in: NIETZSCHE, 2013b, p. 85) Contudo, a construção do pensamento de Nietzsche, o niilismo, pode ter alguma representação no meio evangélico brasileiro, de modo que, seu estudo é válido, tendo em vista o quanto esse filósofo é celebrado, estudado e aceito.
Em sua principal obra, Assim falava Zaratustra, Nietzsche fala abertamente contra a moral religiosa e o sentido religioso da vida:
Exorto-vos, ó meus irmãos, a permanecerdes fiéis à terra, e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supraterrestres. São eles envenenadores, conscientemente ou não. São menosprezadores da vida, moribundos intoxicados de um cansaço da terra; que pereçam, pois!
Blasfemar contra Deus era outrora a maior das blasfêmias; mas Deus morreu, e com ele mortos são os blasfemadores. Agora, o crime mais espantoso é blasfemar da terra, e dar mais valor às entranhas do insondável do que ao sentido da terra. (NIETZSCHE, Assim Falava Zaratustra, 2013, p.  15)

A esfera espiritual era completamente negada por ele. Via a vida numa forma materialista e encarava a religião, assim como a arte, como uma forma de ilusão e anestesia para os sofrimentos da vida, que só servem para o sustento dos sacerdotes. (Cf. NIETZSCHE, 2006, p. 95) Adiante, Nietzsche afirma que o culto religioso tem origem em um tempo sem conhecimento científico, ou de causalidade natural das coisas, o que torna os tempos da ciência completamente fechados para a religião. (Cf. Ibidem, p. 99)
Contando uma história, Nietzsche fez sua famosa declaração da morte de Deus. A história é de um louco com uma lanterna na mão, de dia, procurando por Deus. Todos riem de sua busca e ele começa a falar sobre como a sociedade matou a Deus. Em determinado ponto, diz o conto: “Deus morreu! Continua morto! E fomos nós que o matamos! […] Nunca houve ação mais grandiosa e aqueles que nascerem depois de nós pertencerão, por causa dela, a uma história mais elevada do que foi alguma vez toda a história.” (NIETZSCHE, 2006a, p. 129)
A morte de Deus e da religião é algo bom para Nietzsche, na verdade, seu ideal de humanidade. Em seu livro, Além do bem e do mal, ele não economizou críticas ao pensamento filosófico não materialista e à religião. Sobre o cristianismo ele disse: “A fé cristã é sacrifício desde o princípio: sacrifício de toda liberdade, de todo orgulho, de toda autoconfiança do espírito; ao mesmo tempo, servilização e autoescárnio, automutilação.” [sic] (Nietzsche, 2013b, p. 134)
Adiante, Nietzsche parece abraçar o conceito freudiano de Deus. Para Freud, Deus, isto é, a religião, é uma neurose de regressão. Crer em Deus é a busca da figura paterna e, ao que tudo indica, Nietzsche parece ter concordado ao dizer:
Por que ateísmo hoje? – “O pai” em Deus está radicalmente refutado; do mesmo modo “o juiz”, “o recompensador”. Igualmente seu “livre arbítrio”: ele não ouve – e se ouvisse, ainda assim não poderia ajudar. O pior é: ele parece incapaz de se comunicar claramente: ele é obscuro? – Isso foi o que descobri a partir de muitas conversas, perguntando, ouvindo, como as causas para o declínio do teísmo europeu; parece-me que precisamente o instinto religioso cresce com vigor – mas que ele recusa justamente a satisfação teísta com profunda desconfiança. (Idem, p. 143, grifos do autor)

Em Ecce Homo, uma autobiografia, ele reforça sua ideia de que religiosidade é algo contra a inteligência: “Deus é uma resposta esbofeteada e grosseira, uma indelicadeza contra nós, os pensadores – no fundo apenas uma proibição esbofeteada e grosseira contra nós: vós não deveis pensar!” (Idem, p. 465) Daí, então, o que ele teria formulado sobre a retirada dos valores e moralidade religiosa? O niilismo.
No Assim falava Zaratustra, Nietzsche demonstra crer somente no corpo, na realidade vista e palpável. Para ele, até o crente crê simplesmente no corpo e é por causa dos sofrimentos do corpo que acaba por desejar outra realidade, celeste, longe da dura realidade. Falando dos crentes, “falou Zaratustra”:
Olham sempre para trás, para tempos obscuros: então, certamente, a ilusão e a fé eram outra coisa. O delírio da razão era coisa divina; e a duvida, pecado.
Conheço-os demasiadamente bem esses que se creem semelhantes a Deus: querem que neles se acredite, e que a dúvida seja imputada como pecado. Sei também de sobra em que é que eles mais acreditam.
Não é certamente no além-mundo nem em gotas de sangue redentor, é no corpo que eles sobretudo creem, e o seu próprio corpo é, para eles, a coisa em si.
Mas é para eles uma coisa enfermiça, e bem desejariam sair de sua pele. Eis porque escutam os pregadores da morte, e pregam eles mesmos os além-mundos.
Ouvi, melhor, meus irmãos, a voz do corpo são. É uma voz mais reta e mais pura.
Mais reta linguagem, e mais pura, é a do corpo são, pleno, e feito sob esquadro; e ele fala do sentido da terra.
Assim falava Zaratustra. [sic] (p. 41)

A vida se reduz ao corpo. A existência está no que o corpo é e a verdade se resume a ele. Não há nada além, aliás, o corpo tende a morte e não há nada no corpo – no fim, não há nada. Para ele, todo bem está aqui e não vem de nenhum objetivo maior, além das paixões do corpo. (Cf. Ibidem, p. 45-47) Em A Gaia ciência ele desconstrói todo valor das coisas que não estejam voltados para a satisfação pessoal. A vida humana deve ser voltada para seu prazer, segundo Nietzsche, “todos nós, na verdade, sofremos ainda do demasiado pouco respeito do que há de pessoal em nós, é educado erroneamente” (Idem, 2006b, p. 83), ou seja, é errado negar as paixões e desejos pessoais em prol de uma moralidade social, mas que lhe obriga a abrir mão.
Friedrich Nietzsche era de nenhuma modéstia. Desejava e via qualquer desejo como certo e única verdade. Possivelmente, no meio evangélico, encontre-se um viés para isso, crentes cheios de desejos e que querem que Deus os satisfaça.

2.4. Capitalismo

O termo foi cunhado por socialistas, como Karl Marx, para definir o sistema político-econômico de sua época. É um sistema no qual os meios de produção podem ser propriedade provida, com mão de obra assalariada, com foco no acúmulo de capital, por meio da venda de mercadorias, ou bens de cosumo. Antes, o feudalismo era o sistema cuja riqueza vinha da exploração da terra. Segundo Marx, no capitalismo explora-se a mão de obra (MARX, 2013, P. 20-21)
Por ser um sistema que visa o lucro, o capitalismo segue a lógica de mercado. A demanda determina a produção, por isso, a revolução industrial está intimamente ligada ao capitalismo, oferecendo a este um meio de produção mais eficiente e de larga escala, a fim de maximizar o lucro sobre o valor investido na produção da mercadoria.
O mercado, por ser variável, nem sempre gera o mesmo lucro. Por isso, há uma variação nos lucros e nas áreas, ou produtos mais lucrativos. “Assim efectua-se um movimento de nivelamento da taxa de lucro, pelo fluxo e refluxo constante de capitais, que abandonam os ramos onde a taxa de lucro cai abaixo da média social e afluem em direcção dos ramos onde é superior a esta média.” [sic] (MANDEL, 1981, meio eletrônico).
Por resumo, pode-se definir as seguintes pontos como características do capitalismo: propriedade privada; classes; mercado e mercadoria; lucro. Essa forma de materialismo, muito ligada ao apego a bens materiais, afeta a sociedade de forma muito clara. É necessário ao capitalismo motivar o consumo, o acúmulo de bens e criar novas mercadorias, a fim de acumular mais capital.
Adiante, será verificada sua presença no evangelicalismo brasileiro. Ao que parece, existe um mercado evangélico, que motiva o lucro, tem variedade de produtos e ofertas e atende aos desejos de seus clientes.
  

3. Materialismo e Evangelicalismo

Depois de definidas algumas formas de materialismo, dentre as principais e mais influentes, cabe a investigação da presença destas correntes no evangelicalismo brasileiro. Para tanto, o que segue é uma comparação entre o que foi visto em Epicuro, Karl Marx e Friedrich Nietzsche, com o que é visto no cenário evangélico.

3.1. Atomismo e as sensações na fé evangélica brasileira

Como visto na exposição sobre Epicuro, o materialismo incipiente da Grécia trouxe como consequência a ligação entre realidade e sensações. É visível no meio evangélico brasileiro a constante busca pela tangibilidade da espiritualidade. Há muitos recantos do evangelicalismo brasileiro que buscam ter experiências, sensações que alimentem a fé e a noção de que, pelas sensações, se está tendo um contato com o divino.
Segundo o autor cristão John MacArthur, a busca por experiências tem ligação direta com o existencialismo, forma de materialismo. Segundo ele, “o Existencialismo é um parecer filosófico que declara ser a vida sem sentido e absurda. De acordo com essa definição, deveremos ser livres para fazer o que bem entendemos.” (MACARTHUR, 1998, p. 61, grifos do autor) Isso aponta para o pensamento de Nietzsche, quem só via sentido na vida na busca pelo prazer, sem qualquer compromisso com a moralidade, ou seja, prazer sem reflexão. Adiante, MacArthur acrescenta: “Não responde a nenhuma autoridade; ele é sua própria autoridade. Aquilo que o atrai, aquilo que o ‘deixa ligado’ é a verdade para o Existencialismo.” (Ibidem, p. 62, grifos do autor)
A descrição do autor tem foco no evangelicalismo americano e numa filosofia mais atual que a epicurista. Contudo, o cenário brasileiro vai na mesma direção e, em desacordo com o MacArthur, deve-se buscar as raízes deste comportamento tão voltado às sensações em Epicuro. Sua ênfase no conhecimento como fruto da sensação, ou do encontro do átomo com os sentidos humanos tem mais a ver com o que é visto em Epicuro, tendo em foco a importância dada à experiência, especialmente nos meios pentecostais e neopentecostais. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, fez a mesma ligação epicúrea entre experiência e conhecimento, ao descrever a autoridade do movimento de Batalha Espiritual como advinda das “experiências ocorridas nos gabinetes pastorais, nos campos missionários e nos próprios simpósios da ‘batalha espiritual’.” (LOPES, 2001, p. 56, grifos do autor)
A doutrina pentecostal entende que a experiência é própria da igreja originada conforme Atos dos Apóstolos. Contudo, a experiência como meio de conhecimento está no cerne do pentecostalismo e do neopentecostalismo. Gutierres Siqueira, em seu livro sobre o pentecostalismo, no qual defende a teologia pentecostal, reconhece a atual dificuldade deste meio:
A era pós-pentecostal não é tradicional ou cessacionista, mas simplesmente ignorante sobre a sua própria doutrina. É emocionalista, mas com uma emoção canalizada na mensagem agradável aos ouvidos. O pós-pentecostalismo é ainda parecido com o antigo em termos de “anarquia litúrgica”, mas sem referência no dogma. É a era do pentecostalismo abraçado ao pós-modernismo. Sem firmeza doutrinária não há movimento que sobreviva muito tempo. (SIQUEIRA, 2015, p. 25)

Há um abandono das bases doutrinárias iniciais e uma ênfase na emoção. O aspecto espiritual não está mais alinhado com a doutrina, mas com a materialidade, ou a tangibilidade oferecida pela experiência. Essa mesma constatação fez Lopes em sua avaliação do material de Neusa Itioka, quem “frequentemente usa experiências pessoais como fonte autorizada de conhecimento.” (LOPES, op. cit., p. 58)
O pastor de jovens, Luciano Barreto, da Igreja Batista da Lagoinha, em um vídeo intitulado Como ter experiências com Deus, define culto como diversão. (BARRETO, 2012) Adiante na pregação, ele demonstra um meio de experiência repleta de simbolismos e imagens palpáveis de coisas espirituais. Ele conclui essa linha dizendo: “A gente não se apaixona pelo que a gente acha feio. Muitas vezes, não temos experiências com o Senhor, porque nossa imagem do Senhor tem que mudar.” (Ibid)
Em resposta à pergunta de uma internauta sobre se irá sentir algo se tiver o Espírito, R. R. Soares fala sobre a relação espiritual com a ação humana. Em sua teologia de tomar posse das bênçãos de Deus, ele afirma que a bênção dos dons espirituais, como o falar em línguas, é algo a ser tomado posse. (SOARES, 2005) Há uma ligação da dimensão espiritual com o modo que o crente age, a fim de mover a realidade espiritual.
A ênfase em que o crente passe por experiências pode ser vista em cultos e celebrações do meio evangélico, as quais enfatizam ações e interações do fiel com objetos e símbolos. No site de notícias evangélicas, Gospel Mais, há o relato de uma fiel da Igreja Mundial do Poder de Deus, que diz ter sido curada ao comer um pedaço de uma talhinha vendida na igreja. (Cf. CAVALLERA, 2011) Essa toalhinha é utilizada para ser passada no suor do Apóstolo Valdemiro Santiago e, posteriormente, passada no enfermo. Esse simbolismo denota uma necessidade experiencial e apego ao líder religioso, trazendo o espiritual ao palpável e visível.
É comum que pregadores conduzam sua plateia a terem experiências que vá além do ouvir um sermão. Uma rápida busca por vídeos na Internet traz uma infinidade de vídeos que exibem pessoas em cultos evangélicos dançando, rodopiando, gritando, chorando, rindo, engatinhando, falando em línguas, isso é, sentindo em seus corpos sua espiritualidade. Conforme concluiu Fábio Ferreira, em sua pesquisa sobre o carisma do pregador pentecostal: “devem lançar mão de estratégias que tornem o evangelho mais atrativo e dinâmico em meio a uma igreja cada vez mais exigente e embasada no experiencialismo.” (2012, p. 9)
Ao que parece, mexer com as sensações das pessoas é um bom negócio. Mas, de negócios esse trabalho tratará mais adiante.

3.2. Evangélicos vermelhos, marxismo de “crente”

Desde o surgimento da Teologia da Libertação, o cristianismo anda as voltas com o a ala vermelha da política, economia e sociologia. O comunismo é claramente identificável no trabalho de Leonardo Boff e, ultimamente, os evangélicos têm visto fortalecer-se no Brasil uma versão protestante disto.
A Teologia da Missão Integral, em sua versão brasileira, tem sido acusada de ser socialista. Nas redes sociais, foram muitos os compartilhamentos de críticas a este ponto e de defesas. Esse trabalho verificará se há elementos do materialismo marxista nessa ala do evangelicalismo brasileiro.

3.2.1 Evangelho social e assistencialismo na TMI

René Padilla, em seu livro, Missão Integral, ao lançar os fundamentos da Missão Integral, abordou o tema da fome. Ele aponta a necessidade da igreja levar sua mensagem de arrependimento, como meio do mundo rever sua forma de lidar com a miséria. Em sua descrição do quadro, pode-se perceber um discurso muito próximo de Marx no Manifesto Comunista:
Os países pobres da Ásia, África e América Latina têm em comum um sistema econômico baseado no intercâmbio de produtos industriais por produtos agrícolas, um sistema que lhes foi imposto pela Europa durante os séculos XVIII e XIX e que os deixou abandonados. Para eles não há saída, a menos que as nações ricas vejam que o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, que a vida econômica somente tem sentido no contexto da solidariedade, a mordomia e a responsabilidade humana. (p. 148)

Em outro lugar, Padilla, acompanhando o pacto de Lausanne, entende que a proclamação do evangelho está unida à demonstração do amor de Deus. Isso, segundo descreve, ocorre pelo
reconhecimento de que os cristãos devem partilhar seu interesse pela justiça e pela conciliação em toda a sociedade humana, e pela libertação dos homens de todo tipo de opressão, de que a evangelização e o envolvimento sociopolítico são amos parte do nosso dever cristão. (2009, p. 37)

Isso significa que, há uma relação entre redenção espiritual e social. Porém, essa relação é delimitada adiante, quando Padilla reconhece a distinção entre a redenção espiritual e social:
Embora a reconciliação como home não seja reconciliação com Deus, nem a ação social evangelização, nem a libertação política salvação, afirmamos que a evangelização e o envolvimento sociopolítico são ambos parte do nosso dever cristão [...] a mensagem da salvação implica também uma mensagem de juízo sobre toda forma de alienação, de opressão e de discriminação, e não devemos ter medo de denunciar o mal e a injustiça onde quer que existam. (2009, p. 43)

Até aqui, nota-se o cuidado de Padilla em definir de modo bíblico os termos de sua teologia. Contudo, é notável a semelhança de seu discurso com o de Karl Marx. O ponto aqui não é o de julgar se esta aproximação é benéfica ou não, mas identificar que há, realmente, uma presença de padrões, ainda que nos vocábulos, do materialismo dialético de Marx.
Porém, em páginas seguintes, em seu elogio a um poeta cristão, Báez-Camargo, ele concorda com suas palavras, de que o Comunismo só teve o alcance que teve, porque os cristãos não cumpriram seu papel social. (Cf. PADILLA, 2009, p. 46) Padilla registra o compromisso social de Camargo que, analisando bem, parece uma síntese entre cristianismo e comunismo, mostrando que Camargo não via o comunismo apenas como um “juízo de Deus”, mas com muita admiração. No texto ele afirma que a vida humana está além das necessidades e se realiza no propósito divino; posteriormente, coloca a importância do homem além de sua força de trabalho; enfatiza a solidariedade acima de qualquer barreira; fala contra o lucro e prol do serviço e bem-estar comum; a mordomia cristã em oposição à propriedade privada; então, da dedicação a Deus e ao próximo de toda vocação; da liberdade para servir a Deus em busca de uma ordem social justa; a ligação entre amor e justiça social; por último, a ligação entre paz e justiça.
Nesses elementos fica clara a ligação da visão social da Missão Integral e do comunismo. Sejam bíblicas ou não, as afirmações apontam mais para Marx que para Cristo. A ligação entre salvação e justiça social em termos marxista é clara quando ele descreve a vocação cristã: “No entanto, ainda prevalece a necessidade de, como cristãos, vivermos nossa vocação revolucionária, atentos ao desafio de manter unidas a palavra e a ação na missão cristã.” (PADILLA, 2009, p. 49)
Em vídeo disponível na Internet, dois representantes da Missão Integral no Brasil, Ariovaldo Ramos e Ed Rene Kivitz, discutem o diálogo da Missão Integral com o marxismo (cf. Missão na íntegra, 2014). Ramos coloca o diálogo como meio de apresentar o evangelho como uma opção melhor e, por sua vez, Kivitz parece falar de uma proximidade maior e fez uma comparação de similaridade entre o discurso comunista e da Missão Integral. Parecendo dizer que falava a mesma coisa de Ramos, Kivitz deixa claro que ele, como adepto da Missão Integral, realmente utiliza postulados e leituras da sociedade em conformidade com o marxismo. Há uma clara submissão espistemológica de Kivitz ao comunismo, quanto à avaliação da sociedade.
Essa situação, ao que parece, é uma característica do marxismo latino-americano. No livro publicado pela ABU, O evangelho e o marxista, como fruto dos trabalhos da Comissão de Lausanne para a evangelização mundial, o marxismo no Terceiro Mundo está associado “muito mais à revolução e à transformação de ordem político-econômica.” (O EVANGELHO E O MARXISTA, 1983, p. 9) Isso aponta para uma aproximação do marxismo para a Teologia da Missão Integral, pelo menos, no que tange à temática de ambos os movimentos, ou pela prática de alguns adeptos da Missão Integral de fazerem uma leitura da sociedade, nos termos marxistas.
Em outro momento, Padilla demonstra de uma forma muito clara, como a visão marxista ocupa um espaço em sua teologia. Trazendo a definição de Bonhoffer sobre a dupla missão do reino, ele diz que isso se manifesta da seguinte forma:
A Igreja e o Estado. “O reino de Deus em nosso mundo não é outra coisa senão a dualidade entre Igreja e Estado. Ambos se acham necessariamente relacionados. Nenhum dos dois existe somente para si.” O ministério da Igreja é dar testemunho da ressurreição de Jesus Cristo, e o reino de Deus se configura na Igreja na medida em que ela “supera a solidão do homem com o milagre da confissão e do perdão” e faz visível “a nova comunicada do mundo da ressurreição”. O ministério do Estado, por outro lado, é reconhecer e preservar “a ordem da manutenção da vida”, e o reino de Deus se configura no Estado na medida em que ele “se sabe responsável por guardar este mundo de seu desgarramento e de converter sua autoridade em garantia contra a aniquilação da vida.” (PADILLA, 2009, p. 72, grifos do autor)

A introdução do Estado no contexto do reino de Deus aponta um olhar marxista. Nesta linha de pensamento, o Estado exerce um papel e, sobre ele, são colocados esperança e um papel na implantação do reino de Deus aqui e agora. Isso significa que, não são apenas categorias marxistas que são utilizadas na Missão Integral, mas conceitos, cosmovisão, um axioma central no pensamento comunista: o Estado.

3.3. Evangelho existencial, lógica de mercado capitalista e teologia da prosperidade

Há muito o meio evangélico vem sendo estudado pelo prisma do mercado. Uma pesquisa simples por trabalhos acadêmicos conduz o leitor a uma quantidade enorme de textos relacionando igrejas evangélicas, especialmente de linhas neopentecostais e pentecostais, com a lógica de mercado. Fábio Ferreira, abordando a produção científica sobre o meio pentecostal, escreveu que:
a instituição, a despeito de seu conservadorismo, se desloca e tenta acompanhar as situações que acometem o seu público-alvo. Isso evidencia o potencial de mudança cultural do pentecostalismo, e por sua vez a adequação a uma situação de modernidade. (FERREIRA, 2010, p. 27)

Essa capacidade de adaptação tem se mostrado, ao que parece, uma adaptação ao mercado. A mensagem atual é claramente ao gosto do freguês. Cultos se tornaram espetáculos e campanhas de todo tipo alimentam os desejos da plateia, que crê poder receber benefícios de Deus. Comentando o sucesso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), Leonildo Campos afirmou: “A IURD, por exemplo, incorpora coisas muito antigas, algumas muito próximas da magia e das formas religiosas arcaicas, porém o faz a partir das necessidades dos « consumidores » de seus produtos.” [sic] (CAMPOS, 1999, p. 359)
A fórmula da IURD é a mesma de todo meio Neopentecostal. Esse meio adota a teologia da prosperidade abertamente e não poupa esforços para atrair adeptos. Além do espetáculo em que se transformaram seus cultos, o comércio de símbolos é aberto. Expondo a relação das igrejas neopentecostais com os símbolos, “percebe-se que as igrejas perten­centes ao movimento têm se apoderado plenamente do símbolo iconográ­fico como ferramenta indispensável para a comunicação de seus valores e objetivos.” (THROUP, 2011, p. 117)
O simbolismo nesse meio já está associado com o mercado virtual. Seguindo a tendência do mercado, a religiosidade neopentecostal – ao menos na Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD) – já pode ser desempenhada on-line. No site da igreja, o fiel pode fazer sua doação e participar de um propósito, ou campanhas. Mais do que simplesmente poder ouvir mensagens ou ler textos de seus líderes, o fiel pode escolher um propósito, via de regra associado a algum símbolo (ex.: travesseiro, longarina, vaso) a ser usado como amuleto, porém, somente aquele vendido pela igreja (cf. https://www.matrizimpd.com.br/impd/ purpose), pois este é ungido. Aliás, o portal da IMPD, em sua página inicial (www.impd.com.br) há diversos links para doações, contribuições, venda de produtos, enfim, há um forte apelo financeiro.
Visitando sites da IURD, IMPD, Internacional da Graça de Deus (IIGD) há muito destaque a seus líderes. A imagem da liderança é transmitida com ares empresariais. São conferencistas, e não apenas pregadores. Estão sempre bem vestidos, sorridentes e tem seus blogs e textos em destaque. Ostentam marcas, grifes e anéis, e prometem o mesmo àqueles que contribuírem com seus ministérios. Na página virtual do Apóstolo Rene Terra Nova (www.projetovida.com), sua figura aparece em destaque, com roupas de grife e textos que enaltecem sua atuação.
Algo semelhante pode ser visto entre figuras conservadoras. Alguns pastores e teólogos alcançaram o status de celebridade. Eventos de teologia promovem-se com maior ou menor sucesso de acordo com os nomes envolvidos. Augustus Nicodemus Lopes, devido sua solidez teológica, virou personagem de “memes” em redes sociais, o “Mitodemus”. Fotos de pregadores são colocadas com suas frases, outras que são atribuídas a eles. A postura de muitos fiéis conservadores é idêntica a de fiéis neopentecostais e pentecostais, ainda que esses líderes não motivem tais manifestações. De uma forma diferente, a figura do líder também é muito respeitada no meio conservador, o que pode gerar bons negócios também.
Toda essa pompa é para servir de amostra aos fiéis, a fim de que vejam um alvo. Seus líderes são pessoas de sucesso e abrem o caminho do sucesso para eles também. Em um texto na página da IURD, Você tem feito de Deus o seu sócio?, a autora diz: “O dízimo representa a nossa reverência para com Deus e ao mesmo tempo protege o fruto do nosso trabalho e traz a prosperidade.” (ONARA, Núbia, 2015) Em pregação em sua Igreja, Edir Macedo deixa claro que a oferta é uma forma de barganhar com Deus. Ele diz: “A oferta que você dá aqui é para pagar os custos da obra: rádio, TV, alugueres. Então, ele [Deus] tem a obrigação de abençoar você.” (CASA DO DINHEIRO, 17/6/2015)
No site da Igreja Batista da Lagoinha, algo não muito longe dessa relação de barganha pode ser visto. O pastor Marcus Gregório em seu texto, Três princípios sobre a oferta, aponta como tais princípios: dizer ao diabo que está autorizado a prosperar; não enterrar o talento; dar o melhor para Deus. Gregório conclui: “Desafio de fé: aprenda que os princípios da Palavra de Deus são verdadeiros e eficazes para fazê-lo prosperar. Obedeça-os hoje e prepare o seu melhor para o Senhor.” (GREGÓRIO, 2014)
O pastor Silas Malafaia, da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, é conhecido por sua pregação da teologia da prosperidade. É vigoroso em sua forma de pregar e transmite a mesma imagem de sucesso que outros pregadores pentecostais e neopentecostais. Em mensagem disponível no Youtube, Uma vida de prosperidade, ele fala sobre o que é a oferta, quais as características do verdadeiro ofertante e leis da recompensa divina ao ofertante. (MALAFAIA, 2012) Ao final da mensagem ele explica que prosperidade não é dinheiro simplesmente, mas muitas outras formas de bênção de Deus. No entanto, a oferta sempre é colocada em termos financeiros e toda a explicação foi colocada em termos financeiros, ou seja, o fim pareceu um remendo. Isso se agrava com o conhecido caso da Bíblia de R$911,00. (MALAFAIA, 2011)
Oferta e procura, mercadorias à venda, megaempresários da fé, shows, variedade, concorrência, tudo para agradar o freguês e convencê-lo a depositar sua oferta nesta ou naquela igreja. O evangelicalismo brasileiro é, em muitos de seus recantos, um retrato do capitalismo. A descrição do cenário do evangelicalismo brasileiro nas palavras de Eduardo Guilherme de Moura Paegle, conclui bem a situação:
Temos uma idéia da “Mcdonaldização” da fé, na medida em que a lógica de mercado é imposta nesta sociedade neoliberal. Forma-se um drive thru religioso, onde o fiel serve-se de acordo com as suas preferências, marcado num contexto histórico do final da década de 1980 e início dos anos 1990, pela redemocratização do país, a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria e da própria União Soviética. Dentro desse panorama histórico, a vitória da sociedade de mercado também influencia o contexto religioso, tornando o país, do ponto-de-vista religioso, mais plural e com uma concorrência religiosa mais acirrada. [sic] (2008, p.91)

3.4. Niilismo evangélico, o céu é aqui

Há algum tempo, o líder da Igreja Betesda, Ricardo Gondim, chamou atenção por declarações quanto à volta de Cristo. Em vídeo montagem, que interpola textos de reprovação ao discurso de Gondim, é possível ver este afirmando que a volta de Cristo é um “horizonte utópico”. (PEREIRA, 2012) Como tal, não será alcançado, mas move o homem em sua direção. Isso é, a volta de Jesus é uma pregação para dar esperança e mover o fiel a viver nesse mundo, conforme seria se a volta de Cristo ocorresse.
Contudo, em seu texto sobre o assunto, Gondim afirma crer na volta real de Cristo. (2011) Segundo ele, na conclusão de seu texto: “Mas chegará o dia, grande e glorioso, quando céu e terra se tornarão uma só realidade. Na revelação plena do Cordeiro, saberemos que não lutamos em vão, e celebraremos.” (op. cit.) Para ele, a volta de Cristo é um ideal que move o cristão a sair de sua zona de conforto e viver o que será agora. Agir como se Jesus já tivesse voltado, movido pela esperança do que será e não na iminência do fim. Isso significa que, o cristão deve concentrar-se no aqui e agora.
Esse ponto é controverso – não só por causa de Gondim –, pois o evangelicalismo brasileiro tem se mostrado preso a este mundo por outras razões. Não é o ideal do que será que tem ocupado os púlpitos evangélicos, mas o que há por aqui. É o resultado de um evangelicalismo capitalista, nos qual as sensações são tão motivadas, trazendo o foco do fiel para si e para agora.
O pastor Samuel Ferreira, da Igreja Assembleia de Deus do Brás, é um exemplo desse foco no aqui e agora. Em sua pregação, O Deus das coisas novas, ele usa o texto de Apocalipse 21.5, que se supõe falar das coisas finais. (FERREIRA, 2015) Contudo, ele se volta para as promessas de Deus e que ele está ao lado de seus servos, a fim de fazer cumprir essas promessas. Adiante, seu foco no presente se torna evidente, pois ele não se volta para as questões finais de Apocalipse, mas para uma renovação aqui e agora. Em determinada altura, ele fala: “Não me importa o que acontece ontem; não me importa o que aconteceu semana passada – nem me importa o que está acontecendo agora –, eu me levantei como profeta de Deus pra te dizer: quando você levantar amanhã, eis que tudo se fará...” – deixando subentendido o “novo”. (Ibidem) Adiante, ele faz uma sequência de renovação diária, trazendo o sentido do texto de Apocalipse para aqui e agora.
Em estudo sobre José, Colhendo além do esperado, no site do Ministério Internacional da Restauração (MIR), pode-se ver outro exemplo da cultura capitalista evangélica e seu consequente niilismo. (MIR, 2015) A providência de Deus por meio de José, para que aconselhasse o Faraó a guardar durante sete anos de abundância, para os sete anos de escassez, serviu de exemplo de como alcançar mais nesta vida:
Não são poucos os que sonham em realizar uma grande colheita, mas não agem para ver o sonho realizado. Sonhos só se realizam mediante ação; é preciso agir! Não adianta sonhar muito e não agir. Quando sonhamos e agimos na direção do nosso sonho, colhemos de forma extraordinária. E o melhor é que a colheita sempre vai beneficiar não apenas quem plantou, mas a família e todos os necessitados que vêm até nós. (Ibidem)

Esse é um exemplo de como os textos e histórias bíblicas são interpretados de modo a satisfazer desejos materiais. A declaração de Edir Macedo vista anteriormente, afirmando que Deus é obrigado a lhe abençoar, é muito semelhante ao pensamento niilista de que o sentido da vida é a busca pelo prazer e satisfação pessoal. Diante disto, ao que parece, esse tem se tornado o sentido da fé também.
Parece não haver lugar para a vida futura. Promessas serão cumpridas de modo diferente das profecias bíblicas. Nestas, em sua maior parte, não tinham seus cumprimentos durante a vida do profeta. Atualmente, as promessas emergem das pregações e o fiel é motivado a ofertar, participar de campanhas, seguir passos espirituais, a fim de vê-las cumpridas.
O sentimento de efemeridade parece estar tornando as coisas mais urgentes. O evangélico brasileiro tem pressa e a morte é um desafio. O que aponta para outro aspecto do niilismo presente no evangelicalismo brasileiro. A morte, o sofrimento, os momentos difíceis da vida humana são encarados como problemas de fé. O crente não deve passar por tais momentos. Por isso, os ministérios de cura crescem como uma resposta à realidade da doença e eminência da morte.

3.1.1. Ministérios de cura

Há um aspecto no ministério de cura, que parece apontar para o niilismo. Sendo o niilismo o pensamento de que não há nada além do agora, desta vida, a existência de ministérios de cura aponta para um cristão que parece não ver nada além desta vida. Há um sentimento de não aceitação da morte numa busca desesperada por vida, porém, não a eterna.
As promessas de vida eterna do evangelho são substituídas pelas promessas de cura. Doença é resultado do afastamento de Deus, do pecado e a fé é o meio para que a bênção seja alcançada. Mais do que isso, o próprio Deus é alguém que tem fé, para fazer sua obra – o que mais se parece com autoconfiança:
Deus é um Deus de fé, isto é: Ele possui toda a fé, Ele é perfeito. No entanto, no início, quando o Senhor criou os céus e a terra, Ele não ficou dizendo para Si mesmo que tinha fé para criar o que quisesse e que assim, numa hora dessas, criaria uma porção de coisas. Ao contrário, diz a Bíblia que Ele, o Senhor, agiu segundo estes princípios que estamos estudando. E disse Deus... e o resultado nós conhecemos. (SOARES, ?, lição 2)

O próprio Deus é colocado como exemplo de fé, a fim de motivar o fiel a querer e fazer acontecer. Não há espaço para o sofrimento, pois, segundo Soares, Deus levou sobre si todo o sofrimento:
Em relação à cura, vamos observar a declaração do Senhor, feita por intermédio do profeta Isaías [53.4,5]: Pelas suas pisaduras fostes sarados. Na mente do Senhor, nós já fomos curados. Ele considera como fato consumado a obra de Cristo, em que Ele levou sobre Si mesmo as nossas doenças e dores. Então, não temos que levá-las mais. Tudo já foi feito. Logo, temos um direito legal de desfrutar saúde. (Ibidem, lição 3)

A despeito de passagens de Cristo animando seus discípulos diante das dificuldades. De outras relatando os sofrimentos dos cristãos; ainda, do simples fato de que a presente realidade é uma imposição de Deus em resposta ao pecado de Adão, ao que parece, nenhuma dessas coisas devem abater o crente em Deus. Seguindo Soares, levando às últimas consequências essa linha de pensamento, nenhum cristão deve morrer por doença alguma. É inaceitável, para Soares, o sofrimento pela enfermidade; a cura já está disponível, basta determina-la, afinal:
A nossa posição como filhos de Deus é altamente privilegiada. Somos nós que fazemos a diferença. A bênção de que precisamos não depende mais do Senhor e, sim, de nós. É diferente, não é? Pois bem, a nossa responsabilidade aumenta na proporção em que aprendemos a Verdade. Agora que sabemos como fazer o poder de Deus agir em nosso favor, não podemos ficar nos enganando, tentando fórmulas mágicas inventadas por qualquer pessoa. Aquele que quer realmente vencer há de tomar as suas decisões sobre o que a Palavra revela, pois é a própria Palavra que trará a libertação que ele deseja: E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará (Jo 8.32) (SOARES, ?, lição 2)

Há, na opinião do autor deste trabalho, uma clara dificuldade em enfrentar a vida como ela é. A morte e demais sofrimentos, são parte inerente desta realidade. Negá-la é querer reduzir a nada o significado de tudo que o ser humano vive, vendo sentido apenas no prazer, na satisfação, na cura, no milagre. O sofrimento é negado. O Apóstolo Valdemiro Santiago, que possui um ministério igualmente focado em curas e milagres, escreveu em um de seus textos:
O projeto de Deus para nós é que venhamos crescer, crescer, crescer. Ele não quer o nosso mal e a coisa mais difícil que existe no ser humano é estar preparado para crescer. Para sofrer, todos estamos preparados, mas para crescer... Crescer é o que Deus quer para nós, mas é muito perigoso tanto quanto é bom. Os menores podem sofrer por causa do nosso crescimento em diferença de patamar. [sic] (SANTIAGO, ?)

A fé desta parcela do evangelicalismo brasileiro parece entender que Deus só quer o prazer de seu fiel. Viver a fé é viver a satisfação de anseios e necessidades. A promessa de vida eterna e abundante parece ter sido alterada para uma promessa de vida abundante agora. Talvez, desta fé, Nietzsche compartilharia.
  

Conclusão

A construção do pensamento evangélico brasileiro apresenta sinais de que o materialismo o influencia. A relação não é direta, mas conceitos e práticas apontam para uma compreensão de mundo, da igreja e do ser humano muito semelhantes às defendidas pelo materialismo.
Pode-se dizer que o evangelicalismo brasileiro vive um materialismo espiritualizado. Parece incoerente, mas o autor ateu, André Comte-Sponville, descreve uma espiritualidade ateia. Em suas palavras, falando sobre espiritualidade e religião:
Só se pode confundi-las por metonímia ou abuso de linguagem. É como o todo e a parte, o gênero e a espécie. Toda religião pertence, ao menos em parte, à espiritualidade; mas nem toda espiritualidade é necessariamente religioso. Quer você acredite ou não em Deus, no sobrenatural ou no sagrado, de qualquer modo você se verá confrontado com o infinito, a eternidade, o absoluto – e com você mesmo. Para isso, basta a natureza. Para isso, basta a verdade. Nossa própria finitude transitória e relativa basta. Não poderíamos de outro modo nos pensar como relativos, nem como efêmeros, nem como finitos.
Ser ateu não é negar a existência do absoluto; é negar a sua transcendência, a sua espiritualidade, a sua personalidade – é negar que o absoluto seja Deus. (SPONVILLE, 2009, p. 129)

Isso mostra que não é impossível unir princípios materialistas, que excluem Deus de seu fundamento, com práticas espirituais. Se um ateu pode viver seu materialismo espiritualizado, não há porque duvidar de uma espiritualidade materialista e evangélica. E, se essa forma de espiritualidade é coerente ou não com a Bíblia, ou com as doutrinas fundamentais do evangelicalismo, é trabalho para outra investigação.
Até aqui, pode-se concluir que a aproximação, ou mesmo a secularização do meio evangélico tem aberto suas portas para muitas formas de pensamento. É notória a variedade de doutrinas, práticas, princípios e ênfases e como esses misturam elementos de toda ordem à espiritualidade cristã. Num mundo materialista, o cristão, ao que tudo indica, é um cristão materialista.
Ele apresenta elementos compatíveis com diversas linhas de pensamento materialista. Viu-se que o ideal epicurista de se definir o mundo por meio das sensações é bem presente em contextos do evangelicalismo brasileiro nos quais a experiência é o foco. Foi visto o marxismo, que apresenta grande influência e até reconhecida por alguns líderes evangélicos. A forma capitalista como muitas igrejas são dirigidas e como sua mensagem é dirigida. Por último, o niilismo de cristãos que vivem como se não houvesse mais nada, o céu é aqui.
Cada uma dessas áreas poderia ser estudada em seus pormenores e em suas consequências para o cristianismo. O trabalho, por sua vez, deteve-se em procurar elementos que apontassem para uma influencia materialista no evangelicalismo brasileiro, ao que se conclui que há. Em um próximo esforço, também se pode avaliar a compatibilidade dos preceitos bíblicos como base da teologia cristã com o materialismo, ou seja, o quanto a teologia cristã teve de prescindir de seus princípios e independência epistêmica, para dar espaço ao materialismo.
Indo além, outros segmentos do materialismo poderiam ser abordados. O pensamento de Freud sobre o ser humano é muito presente na sociedade, é quase certo, portanto, que Freud possa explicar muita coisa do pensamento evangélico brasileiro – especialmente sobre a visão da psique humana.
Ao que parece, o materialismo, como forma dominante de entendimento do mundo, está dominando o evangelicalismo brasileiro.

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[1] N.A. Ilustração de seu livro, significando o alcance do ideal de vida epicurista, o ócio contemplativo.