Celebrando a imperfeição - uma crítica à visão pós-modernista de Marcelo Gleiser

Dia desses assisti uma entrevista com Marcelo Gleiser, físico brasileiro. Nessa oportunidade, ele falou sobre sua mudança de visão sobre a natureza. Segundo ele, é um erro buscar uma teoria que explique de modo único o universo e todas as leis da natureza. Em sua visão, as imperfeições presentes na natureza mostram a impossibilidade de que se pense em tal teoria.

Para Gleiser, a natureza evolui justamente a partir das imperfeições. Na impossibilidade de se pensar numa verdade absoluta que explique todo o universo, nosso amigo entende que deveríamos desistir desta busca e ver na falta de absolutos a origem de nossa própria existência. De fato, devido à própria incapacidade da ciência de ter uma visão holística do universo, deveríamos assumir cada imperfeição do universo como uma verdade em si mesma e determinante para que, a falta de simetria resultante das imperfeições, nos leve ao presente resultado. Desta forma, a falta de simetria é a beleza da imperfeição, sendo, por isso, celebrada.

Segundo o físico, a busca pela verdade absoluta que explique todo o universo é uma insistência com base filosófica, ou teológica. Ele sustenta que não há qualquer fundamento na ciência, a despeito dos grandes nomes da história da ciência o terem feito, para se buscar tal verdade. Contudo, o que percebo nessa visão é uma simples mudança de fundamento filosófico.

De uma forma humanista medieval de ver as coisas, Gleiser passou a uma forma pós-moderna. No humanismo o homem é o centro, o que começou a ruir quando se descobriu não só que a Terra não é o centro do universo, mas quem nem mesmo nosso Sol é o centro do universo. Com o fato de que somos apenas um detalhe, o absoluto começou a se expandir para fora de nosso ser, planeta, sistema solar, galáxia e universo. Não demorou muito para que a verdade não só se expandisse em termos de amplitude, mas ela se tornou vasta em termos objetivos, ou seja, cada um com sua verdade, o que a tornou subjetiva.

Para mim, a aparente imperfeição do universo, teologicamente falando, é explicada pela queda. Um evento histórico que tem a ver com a ação de Deus em fazer com que todo o universo sofresse com a quebra da aliança. A teoria que explica todo o universo é a aliança, ou seja, a forma que Deus estabeleceu sua relação com a criação através do homem.

Deus estabeleceu o homem como o representante de toda a criação. O que ele fizesse, atingiria todo o restante da criação. As imperfeições são resultado da ação pessoal sobre uma criação – e o fato de ser criação aponta para um propósito, portanto, a imperfeição tem um objetivo, mas esse não é o de garantir variedade e mutações evolutivas, como asseverou Gleiser. Mudar o pressuposto filosófico só conduziu o Sr. Gleiser a assumir a dúvida e a desistir da busca pela verdade absoluta. Como ele mesmo reconheceu, a incapacidade da ciência de buscar uma verdade absoluta é a impossibilidade de o homem olhar de fora da criação. Isso significa que, na busca por uma verdade que explicasse todo o universo, a ciência sempre se veria diante do desafio e da dúvida se finalmente chegaram à tal verdade absoluta do universo, ou se há mais alguma coisa lá fora, que engloba o resultado recém alcançado.

O problema nesse caso é epistemológico. A ciência não pode alcançar a verdade absoluta, pois esta está além dos limites do universo, num lugar intangível aos instrumentos e métodos científicos. Por outro lado, a teologia parte de uma epistemologia teísta. Para nós, cristãos, a verdade não é descoberta pela labuta da pesquisa, mas é revelada. Estamos certos da verdade que cremos, Jesus, pois esta nos foi revelada por aquele que está além do cosmos, o Criador do mesmo.

Desta forma, verdade é uma questão de relacionamento. Quando Aquele que criou todas as coisas quer relacionar-se conosco, ele nos revela seu Filho, sua verdade personificada. Enquanto a ciência parte de um pressuposto naturalista e ignora a pessoalidade do cosmos, a teologia parte do pressuposto de que a verdade em si está bem acima de nós, portanto, intangível – a não ser que seja colocada em termos humanamente inteligíveis, por Aquele que não está abaixo da verdade.

Como costumo dizer, a ciência só alcança meias verdades. Por ignorarem a pessoalidade, ou o aspecto relacional do processo cognitivo, tudo que a ciência pode entender é fato puro e simples. Tal conhecimento vem despido dos aspectos verdadeiramente ontológicos, que vão muito além da composição química, ou das condições físico-químicas que envolvem o fato. Tais aspecto vão desde o propósito, passando pelo fato puro e simples, indo até a verificação do cumprimento desse propósito. Portanto, por ignorarem que estamos numa criação, não num cosmos surgido per si, os cientistas só alcançam meias verdades que, como gosto de colocar, são mentiras inteiras.

O perigo da visão de nosso amigo físico é a comemoração da imperfeição. Vejo em sua ideia uma revolta contra o ser de Deus. A Palavra de Deus o mostra com sendo não só perfeito, mas infinito em sua perfeição. A forma de Gleiser falar parece romântica e encontra uma nova motivação para que o homem encontre incentivo e razão para viver longe de seu Criador. Por outro lado, o pressuposto naturalista de nosso amigo o conduz a encontrar uma forma não só ateísta de interpretar o mundo, mas caótica e subjetiva, pois, nenhum cientista poderá afirmar que as evidências são interpretada de igual forma por todos os estudiosos. Sendo assim, ao passo que admitimos a falta de um absoluto, celebrando as imperfeições, logo alguém dirá que a imperfeição dos estudos e conclusões científicas fazem parte do processo, afinal, era para ser imperfeito mesmo.

Aliás, vejo mais, vejo o fim da ciência. Quem garante que na falta de um absoluto as pessoas comecem a estabelecer seu próprio método científico. O que impede que na admissão das imperfeições os processos científicos sejam subjetivados, para dar vazão às imperfeições que se encontram em cada um de nós. Todos poderão alegar que suas idéias são fatos científicos, pois a precisão não será mais um paradigma universal, pelo fato dela mesma negar a imperfeição, portanto, deixa de ser uma observação confiável de um universo que se estabelece pelas imperfeições.

Além disso, a contradição de nosso colega físico é clara. Como dizer que não há uma teoria única que explique o universo, estabelecendo uma teoria que explique o todo!?? Sim, pois, ao dizer que não há teoria que explique todo o universo e que precisamos aceitar as imperfeições como fonte, cada uma delas, de uma teoria que as explique, já estabelecemos um padrão único para todas as coisas, o que é auto-contraditório.

Outro ponto é o argumento da impossibilidade da plena cognição. Isso significa que ninguém pode fazer uma afirmação que exige conhecimento pleno de tudo que existe no universo. Ao afirmar que não há uma teoria única que explique todo o universo, Gleiser precisa ter conhecimento total de todas as coisas, o que faria dele um deus – o que ele nega claramente ao afirmar a impossibilidade de uma teoria única que explique todo o universo. Somente um ser com capacidade de conhecer todas as coisas existentes, o qual por definição é deus, pode afirmar tacitamente algo que envolva todo o cosmos – portanto, louvado seja Marcelo Gleiser, o Senhor. Claro que estou sendo irônico, mas não é tentandor?

Ao Criador e razão de existência de todo o cosmos seja a glória, eternamente, AMÉM! – esse ai é Iavé, o Deus de Abraão.

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