Um homem? Um ídolo?


Michael Jackson morreu. Creio que, apesar de suas esquisitices, a maioria se entristeceu com esse fato. Pessoalmente, vejo as imagens das diversas tentativas minhas, na infância, de fazer o Moon Walker. Lembro-me do medo que sentia ao ver Thriller com todos aqueles vampiros. É interessante, diante disso, como uma pessoa, de tão longe, participa tanto de nossas vidas. Mas não só de boas influências viveu Michael.

Seus problemas com sua aparência, suas dificuldades de relacionamento revelavam um ser humano comum. A idolatria por um homem parece distorcer uma simples morte e transformá-la na morte de um messias. Como diz o ditado, após a morte, todo mundo vira santo. Não estou tentando manchar a imagem deste grande artista, mas lembrar-nos de que se trata de mais um ser humano que se vai e, com ele, suas qualidades e defeitos.

Mas falando de sua vida, vemos ali um campo muito fértil para a psiquiatria e psicologia. Um homem com imensos transtornos, neuroses, vazios, complexos, enfim, Michael era tudo, menos um ser humano normal. Nada em sua vida lhe trouxe equilíbrio, mas o mais impressionante é que pessoas se deixam influenciar de modo muito profundo por esses ídolos desajustados. Não que o Sr. Jackson fosse um fora da lei incorrigível, mas ele não é o tipo de pessoa estruturada, sobre quem podemos colocar nossas confianças ao ponto de fazer dele um exemplo a ser seguido. Tivemos diante de nós um homem marcado para sempre pela monstruosidade de um pai ainda mais trastornado.

Entre transtornos e complexos, seu brilhantismo é óbvio, porém ínfimo diante dos gigantes, ou fantasmas que o assombravam. Sua derrocada financeira é uma bela forma de vermos isso. Ele conseguiu gastar todo o dinheiro que conseguiu com seu brilhantismo, nas extravagâncias de sua vida desequilibrada. Mesmo assim, Michael é um ídolo, e no sentido pleno da palavra.

Ovacionado como um deus, a adoração a um ídolo tão fora de si revela o desajuste de pessoas que não possuem referenciais. Não estou acusando Michael de nada, ele era só humano, mas muitos parecem querer fazê-lo mais do isso; até um lugar no céu especial foi feito para ele, segundo uma cantora brasileira.!? De onde tiram essas coisas eu sinceramente não sei, só sei que estamos valorizando mais a excentricidade à virtudes que realmente fazem de nós um ser humano melhor. É incrível que se dê tanto crédito a um homem que não encarava com naturalidade seu próprio envelhecimento. Em sua Crise de Peter Pan, vimos uma criança indefesa diante da vida, com problemas emocionais já bem amadurecidos – a realidade era bem essa, de maduro só seus problemas.

A crise do Sr. Jackson é a crise de nosso tempo sem referenciais bem definidos. Chegamos no tempo que desajustados emocionais como Michael, e até foras da lei como Cazuza se tornaram o ideal de vida de muitos. E quando não o são, são endeusados como alguém que está além de nossa realidade; que existem para serem reverenciados. Não sou contra o Michael, fiquei sentido com sua morte e com a perda da possibilidade de ver algo novo de seu brilhantismo artístico; mas estou longe de chorar copiosamente por isso. Deixo isso para seus familiares e amigos mais chegados, esses sim estão de luto autêntico; outros estão enlutados por alguém que eles criaram, um ídolo muito distante do verdadeiro homem que ainda era o velho menino dos Jacksons Five. Que Deus console a família Jackson.

Comentários

  1. Obrigado, Ricardo, pela visita ao blog!
    Gostei muito desse texto. Esses dias aqui temos, claro, conversado entre amigos sobre a pessoa Michael Jackson - o que nos chega pela mídia - e toda idolatria.
    Muito bom!!
    Abraço

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  2. Valeu, cara. Temos de estar atentos a tudo que nos chega pela mídia, para melhor mostrarmos porque Cristo é nosso referencial.

    Abraço

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