Queime o Corão! Ou não!

A ameaça de queimar o Corão, por parte do pastor americano, Tery Jones, nos leva a um velho dilema da sociedade livre: devemos dar liberdade a quem não concede? De forma alguma apoio a atitude, mesmo que tenha ficado só na ameaça, mas não posso deixar de entender o que se passa no coração daquele povo.

Estive lá em janeiro deste ano e é muito claro o significado de 11/09/2001. Todos falam de como as coisas mudaram. Como a segurança se tornou uma obsessão para todos. Polícia a cada quarteirão, de carro ou à pé; polícia disfarçada de mendigo, catadores de lixo, taxistas e tantas outras formas. Um enorme esforço em aeroportos e consulados, visando evitar a entrada de terroristas. Nós, brasileiros, nem imaginamos o que é viver com a lembrança de milhares de mortos chovendo do céu da maior cidade norte americana e ter outras centenas espalhadas pelo país.

O trauma causado por extremistas islâmicos é algo vivo na mente dos norte americanos. Apesar disso, eles nunca reclamaram – pelo menos não de modo tão merecedor de atenção – da presença de islâmicos em seu país. Todos, apesar das mortes claramente ligadas a grupos islâmicos, sempre tiveram a liberdade de praticar sua religião naquele país. No entanto, construir uma mesquita próxima de um local tão simbólico para aquele povo é algo que deve ser realmente questionado.

Estamos falando de um povo que, mesmo os mais moderados, não admitem outra religião em seu país. São pessoas tão acostumadas à intolerância, que não penso ser um ataque à liberdade religiosa deles o protesto contra a construção da mesquita. Antes de tudo, o protesto novaiorquino, é um pedido de bom senso e, em segundo lugar, o mínimo de retribuição pelo impedimento de que outros exerçam sua liberdade religiosa em terras islâmicas.

Acho tão vexatório o fato de concedermos liberdade religiosa para um povo que não o faz. Essa atitude deu a eles um lugar em nosso meio, sem que nós tivéssemos um lugar no meio deles. Agora um povo que sofreu – e não me esqueço por nenhum minuto que eles também fazem muitos sofrerem, mas, pelo menos, dão espaço para que todos possam ser felizes em suas terras – tem de engolir a presença simbólica do povo que impulgiu sobre eles o maior sofrimento de sua história, próxima ao local onde tudo aconteceu.

Não sou a favor de proibir o culto de quem quer que seja, mas não sou a favor de tratarmos com tanta liberdade quem não faz. Não estou querendo caçar o direito de ninguém, mas não podemos permitir que um povo que não dá liberdade tenha a liberdade de se colocarem tão próximos à dor de um povo.

Sei que nem todos os islâmicos concordam com o que ocorreu por mando de Bin Laden, mas são o mesmo povo, a mesma religião. A questão não é se penso que ele são culpados, sei que não são, em sua grande maioria, mas as forças da memória são dirigidas por associações. Não acho que os que querem construir a mesquita sejam terroristas, mas são associações óbvias a tudo que aconteceu. Ter um pouco de entendimento sobre a dor dos outros, ainda mais sobre um país que os recebeu e lhes deu liberdade religiosa não seria tão ruim assim.

A dificuldade nessa situação, na minha opinião, é que eles sempre tiveram o que não deram: liberdade. Para piorar, os EUA retribuíram essa questão com violência, interesses econômicos e muita hipocrisia e não com o velho e bom princípio diplomático da retribuição. Liberdade para os islâmicos, judeus, budistas e tudo o mais... sim! Quando seus países fizerem o mesmo com os outros. A não ser a questão da fé, não tenho qualquer problema com quem quer seja. Não penso em impedir quem quer que seja de exercer sua fé, nem pretendo deixar de professar a minha a quem quer que seja.

Não concordo com o desrespeito do pastor Jones contra os islâmicos. Mas também não concordo que um povo que não dá liberdade a ninguém usufrua da liberdade ofertada por um povo, de modo a ofender esse mesmo povo. Ao mesmo tempo que os construtores dessa mesquita não são os que atacaram em 2001, eles são os que usufruem dos benefícios do solo norte americano. Mudar de lugar é um belo sinal de gratidão e compreensão que eles dizem ter.

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