Criação de monstros


O assunto da semana não foi a abertura do capital da Petrobrás. Também não foi nenhum crime hediondo. Tão pouco mais algum escândalo envolvendo o governo Lula e a candidatura de Dilma Roussef. O assunto da semana foi: Neymar. Este jovem jogador de sucesso e muito talento é o centro de uma crise que vai muito além dos certames do “Peixe”. A crise envolve toda nossa sociedade e a velha receita de como se cria um monstro.

Todo esse movimento entorno deste jovem revela a perda de nossos princípios, o que faz da diretoria do Santos é um belo exemplo de toda a nossa sociedade. Vimos um jovem envolvido em brigas, desrespeito aos adversários, aos mais velhos e aos seus superiores. Alguns defendem dizendo que não há nada de anormal em tudo isso. De fato, com sua pouca idade, ter desavenças, descontroles e dificuldade de se adequar é normal, o que não é normal e não agir diante disso. Enquanto seu técnico tentou ajudar e disciplinar Neymar, dando-lhe limites, a diretoria do Santos mandou um recado à sociedade: o sucesso do clube está acima de qualquer princípio e do próprio bem do jogador. Nessa atitude, vemos os elementos que são recorrentes nas famílias que tem filhos problemáticos: falta de limites, ausência de disciplina e premiação das más atitudes. Quando misturamos esses elementos estamos na receita certa para criarmos um monstro.

Esse monstro foi bem retratado nas atitudes de Neymar. Violência, desrespeito, arrogância, palavrões, materialismo. Estamos vendo um monstro que cresce a cada atitude premiada com o apoio de uma diretoria interesseira. Este rapaz é um jovem normal, que vive numa situação incomum, a fama; por sua vez, a diretoria é que teve uma atitude nada normal: passar a mão na cabeça. A responsabilidade de dar um basta na falta de educação desse rapaz era do técnico, que o fez, e que deveria ser apoiado pela diretoria. Ao invés disso, a diretoria causa a demissão de Márcio Fernandes, ao manter o jogador em campo, o que foi apoiado pela justiça desportiva, que não deu qualquer tipo de sanção a Neymar.

Criar um monstro é fácil. Evitar que a normalidade da juventude se torne atitudes para uma vida toda é um desafio que todos os pais e a sociedade precisam assumir. Pelo jeito, o único disposto a não negociar princípios, visando não só o bem de seu time, mas o do próprio Neymar, foi o técnico da seleção brasileira, Mano Menezes. Por mais que ele reconheça o talento e a boa contribuição técnica do jovem Neymar, ele lhe deu um basta. Será que nossa sociedade discorda de Mano? Será que o brasileiro prefere gols a princípios? Eu temo que para ambas as perguntas, a resposta é sim!

Basta ver a atitude dos brasileiros em geral. Não somos um povo de muitos princípios e, o pior, é que nos orgulhamos disso. De fato, demos até um nome carinhoso para esse comportamento: jeitinho brasileiro. Nós sempre arrumamos um meio para deixarmos os princípios e as leis de lado, a fim de conseguirmos o que queremos. No trânsito, no emprego, na vida familiar e até na igreja, vemos esses brasileirismos tomando conta.

Não é difícil vermos pais tão omissos quanto os de Neymar (supondo eu que a raiz do problema esta ai) dentro de nossas igrejas. Como pastor, sempre vejo crianças sem limites, atrapalhando o culto. Pais que sempre cedem às birras de seus filhos. Isso para falar de casos semelhantes ao de Neymar. Se for mencionar o jeito displicente do brasileiro em outras áreas na igreja você ficará desanimado de tanto ler. Mas, para não ficar na saudade, lembremos do sincretismo de seitas evangélicas, que trazem para dentro do contexto cristão, atitudes, idéias e comportamentos bem parecidos com as religiões chamadas do baixo espiritismo. Esse é, ou não é um modo de atrair pessoas, utilizando um dos traços mais marcantes do brasileiro: supersticiosidade? Não existe uma corrente de nossa sociedade que não seja afetada por esse modo de fazer as coisas. Hoje, é mais fácil para o brasileiro tolerar a falta de educação, do que uma derrota nos gramados. É mais aceitável ver um moleque xingando e desrespeitando, do que ver um senhor, pai de família, ser demitido por fazer o que é certo e defender sua honra e usar de suas prerrogativas profissionais.

Falo de como criar um monstro ao deixar um filho fazer tudo o que quer sem lhe negar nada e sem lhe administrar uma disciplina sequer, mas essa receita por ser feita em escala industrial. Qualquer engenheiro químico social vai poder identificar a medida em que a ausência no lar é copiada no convívio social. Nosso povo é um monstro, sem limites, sem moral, sem ética, sem escrúpulos, sem educação. Infelizmente, nossas igrejas não são diferentes, cheias de brasileiros mal educados, que conversam durante o serviço a Deus; agem com jeitinhos para serem vistos com admiração em suas congregações e ainda tentam fazer o mesmo com o próprio Deus, fazendo promessas infundadas, decretos presunçosos e campanhas esdrúxulas.

Lares omissos criaram monstros. Monstros a solta criaram uma sociedade digna da Ilha do Dr. Moreau, mas às avessas, quando homens são transformados em bestas. E a bestialidade de muitos dos que se dizem líderes e entendidos da bíblia é a de que não se deve disciplinar, que em criança não se dá palmada e de que quem pune não ama. Será que esses criadores de monstro já leram Êxodo 20, Hebreus 12 ou mesmo Apocalipse 3.19? Temos uma igreja monstruosa, tão mimada quanto o craque em questão. Não há um círculo social no Brasil que não esteja afetado pelo comportamento de pessoas que jamais experimentaram um não, um basta ou mesmo um chega! Infelizmente, na igreja, assim como na sociedade, os monstros estão à solta, e com grande apoio.

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