Cruzada


Ontem assisti o filme Cruzada. É uma história bem comum, com um homem tentando se encontrar, que coloca a esperança numa coisa (Jerusalém, no caso) e acaba, de fato, encontrando nos braços de uma mulher (uma magrela, no caso). Como pano de fundo dessa história, nada emocionante, o cenário das cruzadas, que deu todo o argumento e aquele ar épico ao romance. Descrevendo a coisa desta forma parece até que não gostei do filme, mas é justamente o contrário.

Quando vejo um filme, não fico preso aos detalhes e nem acho que deve ser aquele filme com aquela história profunda e diálogos densos, para fazer pensar. Para mim, filme é algo para entreter e, para isso, não é preciso muito – pelo menos em termos de profundidade, pois a produção tem de ser bem cara, que é para ter muito barulho, movimento e emoção. Com tudo isso, não quero indicar que não gosto de filmes profundos, mas não são esses que busco na hora de meu lazer e descanso.

O que quero abordar falando desse filme é justamente o pano de fundo, que sustenta a história de amor bem “comunzinha”: as cruzadas. Esse foi um período bem conturbado da história humana, ainda mais de Jerusalém que, até os nossos dias, permanece uma incógnita. Lugar sagrado para as três maiores religiões monoteístas, além da religiosidade, aquela cidade viu muito sangue e, vendo aquela história encenada no filme, percebe-se que o impulso religioso cristão em “defender”, ou ocupar Jerusalém é algo bem distante do que o evangelho ensina. Acho interessante que as crentes ainda tenham o impulso de sacralizar lugar e coisas. Naquele tempo, esse sentimento levou ao extremo de uma guerra; hoje leva a extremos de superstição. É interessante como as coisas não mudam muito, ainda que estejam em endereços diferentes. Enquanto Cristo disse à mulher samaritana que: “podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.” (João 4.21-23); por sua vez, nas cruzadas o povo dizia que tínhamos (os cristãos) de conquistar e defender Jerusalém, a cidade santa; hoje muitos dizem: - “venham para nossa igreja, aqui está o poder de Deus”; - “saia de onde você está e venha orar conosco”; - “recebe o suor sagrado do ungido de Deus e cure suas doenças”.

Perceba que a sacralização de coisas, que o próprio Cristo condenou, conduz a extremos perigosos e idólatras. As pessoas matavam e morriam por Jerusalém, num tempo tão distante dos fatos que realmente importaram para nós: morte e ressurreição do Senhor. Hoje, as pessoas confiam, esparramam seu dinheiro e se empenham em campanhas e “propósitos” complexos e cheios de “leis espirituais”, para barganhar as bênçãos de Deus, enquanto a maior bênção que poderiam ter é gratuita e simples.

O tempo das cruzadas passou, mas o espírito de “idolatrização” não. Ainda que não haja mais o impulso de conquistar a cidade “santa”, há o de se creditar a vida espiritual a líderes e “sacerdotes”, que dizem ser ungidos de Deus. Tais líderes não são ungidos com óleo santo, mas são lambuzados no óleo de Peroba, para deixar suas caras de pau lustradas e bonitinhas o suficientes, para que os crentes idólatras, que não se bastam na graça de Deus, depositem sua confiança em suas práticas e ritos biblicamente infundados. A total falta de compreensão bíblica de que lugares e coisas não importam para nosso relacionamento com Deus, pois fomos nós feitos casa de Deus, habitação do Espírito, tem levado aqueles que se dizem crentes à cruzadas até templos suntuosos, que relembram bem o espírito aristocrático daqueles reis do passado, que se diziam enviados por Deus, para fazerem sua vontade e conquistar algo que, de fato, o Senhor nunca quis.

Com um ambiente menos hostil, mas não menos épico, os crentes idolatram. Idolatram o templo onde dizem adorar a Deus. Idolatram o dito pastor. Idolatram o rito – ou seria melhor dizer, a simpatia “evangélica” pra alcançar as bênçãos de Deus? Idolatram formas e modos litúrgicos que nada significam diante de Deus. Vemos, portanto, que o espírito das cruzadas não está morto; ainda ignoramos Jesus e continuamos a confiar em lugares, coisas e pessoas.

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