Sua morte, nossa morte; Sua vida, nossa vida

A morte e ressurreição de nosso Senhor é fator central da teologia bíblica. Desde o início das Escrituras, vemos as promessas que envolvem a vinda de nosso Messias e sua obra de redenção de seu povo. Ainda que nem todos os aspectos desta obra tenham ficado claros desde o início, o fato é que a Bíblia, progressivamente, revela a vontade de Deus se conduzindo e concentrando-se nesta obra. Conforme nos escreveu Paulo:

“Desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra;” (Ef 1.9,10).

Como servos deste a quem todas as coisas estão convergindo – lembrando que a história, isto é, a vontade de Deus, ainda não se cumpri por completo – entender o que significa a páscoa é, não só fundamental para nosso exercício intelectual e doutrinário, como também para nosso exercício de adoração, gratidão e dedicação em nosso dia a dia. Comemoramos não só o fato de que Jesus morreu por nossos pecados, mas todos os aspectos que envolvem essa morte nos importam.

Antes de tudo, temos de nos lembrar que estamos neste estado por desobediência. Isso significa que a relação de obediência entre Criador e criatura precisava ser restabelecida. Por isso, antes de pensarmos na morte de Jesus, temos de nos lembrar de sua vida de obediência. Verdadeiramente, esse aspecto foi fundamental na estada de nosso Salvador em nosso meio: “A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.” (Jo 4.34)

Aquilo que sustentava e movia nosso Redentor era o desejo de satisfazer a vontade do Pai. Desobedecido já pelo primeiro casal, o Criador desejava ter sua Lei cumprida pelo homem, contudo, sua vontade foi a de que seu Filho o fizesse. Deus jamais foi pego de surpresa pela queda. Seu plano, desde a eternidade, era fazer de seu Filho o grande foco da criação, tornando-o o grande heroi da humanidade caída. Como o próprio Pai afirmou: “Este é meu filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi” (Mt 17.5). Ainda que Deus ame, cuide e use suas criaturas, seu Filho é seu grande prazer. Nele o Pai viu sua Lei ser cumprida, uma devoção completa e a revelação de seu ser de um modo inigualável (Hb 1.1-4).

Se somos alvos da graça de Deus, é porque Jesus alcançou méritos diante do Pai com sua vida ilibada. O Pai não nos abençoa simplesmente, ele derrama sua graça sobre nós, por termos sido representados por Cristo, não só em sua morte na cruz, mas em toda a sua vida de santidade. Nossa gratidão, portanto, não se refere apenas ao pagamento da dívida, isto é, por nossos pecados, mas por todas as bênçãos que temos recebido, pois todas elas tem por base os méritos alcançados pela vida de obediência de nosso Redentor.

Além disso, se Deus age com misericórdia para conosco, ai sim temos de focar a cruz de Cristo. É pelo fato de Cristo ter levado sobre si o peso de nosso pecado, que Deus não o coloca sobre nós. Se apenas sofremos consequências e não as penalidades do pecado (morte eterna), é porque nosso Redentor as sofreu na cruz. É por este fato que não precisamos levar sangue diante de Deus. Nosso culto é de vida e nossa vida é entregue em dedicação a Deus (Rm 12.1,2), por ter nosso Salvador entregue seu sangue em nosso lugar. Deste modo, não só a obediência positiva da Lei foi cumprida, mas também a obediência negativa, isto é, a obediência às penalidades da Lei foi satisfeita.

Na cruz de Cristo temos o cumprimento de modo pleno do que foi anunciado na páscoa judaica, quando os primogênitos, cujas casas estavam marcadas com sangue (Ex 12), foram poupados. Na cruz temos nossa marca de sangue e somos poupados. Participamos disto somente de modo simbólico. Somos mortos com Jesus nas águas do batismo (Rm 6.4); ali, o velho homem morre, a velha natureza, morta em seus delitos e pecados é revivida (Ef 2.1-10) – simbolicamente, pois o fato ocorre antes e externizado por este rito. Nas águas do batismo enterramos nossa velha natureza; o velho homem é deitado em sua cova para que o novo homem, em novidade de vida, ressurja. Mas isso é apenas o começo de uma vida de dedicação a Deus. Na cruz de Cristo temos um novo significado de vida, um caminho a ser seguido, uma forma de vida. Na páscoa de Cristo, o Cordeiro morre, os primogênitos morrem juntos, a fim de que renasçam para uma vida verdadeira (Jo 14.6).

Mas no batismo não temos nossa ressurreição final. Ainda aguardamos o último dia, quando seremos ressuscitados de nossa morte corporal, para a vida eterna. Contudo, isso só é possível, porque nosso Redentor não permaneceu morto. Se temos esperança para o último dia, é porque nosso Salvador venceu a morte e ressurgiu par a vida. Não fora por isso, a morte teria vencido, mas como nosso Senhor venceu, podemos perguntar: “Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1Co 15.55). Porque nosso Redentor vive, podemos crer no amanhã; porque Jesus não foi vencido pela morte podemos dizer que somos os mais felizes de todos os homens (1Co 15).

Sua morte significou a morte de nosso velho homem; sua ressurreição significa que iremos ressuscitar. Mostra-nos que ele tem poder sobre a morte e pode dar-nos vida novamente. Isso nos traz uma perspectiva escatológica de vida, direcionando nosso olhar para o grande dia em que veremos que a morte não mais será um problema. A páscoa com Cristo deve nos fazer olhar adiante e nos fazer focar nos benefícios de vida, não nos bens desta realidade. Em sua ressurreição podemos sonhar com a eternidade e dar significado à nossa fé:

“E, se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados. E ainda mais: os que dormiram em Cristo pereceram. Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens. Mas, de fato, Cristo ressuscitou dentre os mortos, sendo ele as primícias dos que dormem.” (1Co 15.17-19)

Continue celebrando a páscoa em Cristo. Ela não tem a ver só com uma época do ano, mas com todos os aspectos de vida daqueles que creem.

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