Cegos de nascença

Você já se deparou com alguém que pensava ser um visionário? Alguém que se via com uma visão das coisas melhor que a dos outros. Que pensava entender o mundo a sua volta melhor e que, por isso, deveria liderar e até comandar as coisas. Nos tempos do Novo Testamento essa figura existia e foi o grande alvo das críticas e dos exemplos de “como não fazer” de nosso Senhor. Os fariseus, cheios de justiça própria, não conseguiam entender as simples parábolas de Jesus, tão pouco enxergavam o Messias ali, bem diante de seus olhos, mesmo com todo aquele pretenso conhecimento da Lei.

É óbvio que, por mais que tivessem conhecimento da letra fria da Lei, eles não tinham relacionamento com a Lei. De fato, quando um hebreu fala em conhecer, via de regra, ele se refere a um conhecimento profundo, tão profundo que a noção de relacionamento está presente. Não é uma simples atividade cognitiva, mas é uma relação tão profunda que gera aquele tipo de conhecer de quando uma mãe diz a seu filho: “menino, não mente pra sua mãe que eu te conheço!”

Ninguém tem dúvida de que esta mãe tem motivos sérios para desconfiar de seu filho, devido ao relacionamento profundo, íntimo, próprio de mãe e filho. Esse é o tipo de conhecimento próprio daqueles que verdadeiramente conhecem a Lei de Deus e seu anunciado Messias. Esse é o tipo de conhecimento que os fariseus não tinham. Cheios de si, enquanto a Lei mostrava a pecaminosidade humana, agiam antagonicamente a este fato, demonstrando total desentendimento do significado da graça que emanava daquele sistema de santidade inalcançável pelo pecador, mas factível naquele que era prometido por ela.

No curso de sua história, os fariseus se deparam com Jesus e seu desafio ao domínio espiritual desempenhado por este grupo. Nesse relacionamento conturbado, vemos a história de um homem, cego de nascença. A despeito da crença de que o pecado dos pais ou os próprios eram revertidos em alguma moléstia ou agravo de vida à pessoa, ou a seus descendentes, Cristo dá uma razão inesperada para que tanto sofrimento fosse presente na vida daquele cego: que assim foi feito para que Deus manifestasse sua glória (Jo 9).

A glória de Deus era o objetivo daquele sofrimento. Pense bem, nascer cego, permanecer assim até a fase adulta da vida, tudo isso para que Deus manifeste sua glória. Será que temos a noção do que isso significa? Será que como criaturas sabemos que esse é um direito de Deus e honra para nós – e se você for como eu, essa honra não queremos nem de perto? Contudo, não importa se gostamos ou não, o Criador faz o que deseja de sua criatura. Infelizmente, por termos olhos de criatura caída, não conseguimos visualizar as razões, ou mesmo a moral de tudo que acontece conosco. Na maioria das vezes, nada disso nos parece claro, o que resulta em nossa desconfiança, murmúrio, sensação de abandono e autocomiseração. Aquele homem, cego de nascença, tinha todos os motivos do mundo para agir assim – talvez o tenha feito – mas seu encontro com o Senhor mudaria toda essa história e traria à tona o propósito de tanto sofrimento.

Diferentemente do que qualquer um poderia pensa naquele tempo, Jesus mostrou que aquele homem nascera cego para que tivesse aquele encontro e não por causa do pecado. No verso 4, vemos que nosso Redentor afirma que o cego estava ali para que as obras do Messias fossem reveladas ao mundo, para que soubessem quem ele era – isso para os que creram – e para suscitar ainda mais ira – isso do lado dos que não creram. De fato, a revelação do Salvador tinha esse efeito; enquanto por um lado trazia o conhecimento que libertava e salvava, por outro, confundia e afastava ainda mais os incrédulos. No entanto, para surpresa das pessoas de seu tempo, o grupo dominante, tido como os doutores da Lei, detentores da verdade, eram os incrédulos e o pobre cego, mendicante, viria a ser o pós-doutorado.

Enquanto os fariseus tinham a Lei decorada, livros e interpretações da Lei registrados, o pobre cego, que jamais pode ler uma linha de tudo isso, teria um encontro que define o que, de fato, é conhecer a Deus. Enquanto os fariseus liam e se tomavam por medida de suas idéias e teologias, aquele cego viva o dia a dia, buscando o que comer e aceitando as migalhas e as esmolas que recebia. Mal sabiam aqueles homens – e tão pouco muitos dos que estão hoje nas igrejas – que a figura mais desprezada era aquela mais próxima da verdade.

Como estavam cheios de si, os fariseus não conseguiam enxergar a verdade em Cristo. Por mais milagres que fizesse. Por mais ensinamentos precisos e de acordo com a Lei que Jesus desse, aqueles religiosos estavam embotados em sua visão, devido à justiça própria. Por outro lado, aquele cego vulnerável, pobre, sem poder sustentar-se, precisando sempre dos outros, tinha exatamente o que o levava a estar pronto para o tipo de mensagem que a Lei e o evangelho nos trazem. A Palavra de Deus nos ensina que quando estamos cheios de nós mesmos, estamos impróprios para a graça, mas, quando esvaziados de nós, reconhecidos de nossa dependência, ai estamos prontos a ir a Jesus e viver pela graça.

Naquele encontro, o dependente cego permitiu que lodo fosse colocado em seus olhos. Aceitou o simples comando de ir ao tanque de Siloé, sem exigir ser conduzido – no sentido de que: “já que você lambuzou meus olhos, pelo menos, me leve ao poço”. Para que a glória de Deus se tornasse visível àqueles que enxergavam, o cego passou a ver também.

Por sempre pedir esmolas, aquele homem era conhecido e logo aquele maravilhoso acontecido ganhou notoriedade. Levado aos fariseus, o já não mais cego foi questionado sobre como ele passou a ver. Com a verdade na cara deles, os fariseus só conseguiam ver o legalismo. Um homem, cego de nascença, o que foi confirmado por seus pais, estava vendo. Alguém que estava sofrendo a vida toda, mendigando, sem perspectiva, agora enxergava e os fariseus só queriam saber quem o teria curado, e ainda tinham a cara de pau de dizer àquele ex-cego que glorificasse a Deus. Na verdade, não interessava a eles a glória de Deus, o que eles não queriam era que um homem, que não fosse do bando deles, ganhasse notoriedade, seguidores e prestígio. Um semelhante estava vendo, depois de tanto tempo de sofrimento, e aqueles religiosos não se alegravam com ele, só ser iravam com a possibilidade de Jesus ganhar mais um.

A verdade era tão clara, que mesmo entre os fariseus havia dissensão. Alguns questionavam como alguém que não estivesse com Deus poderia fazer tantos sinais. Mas a verdade não prevalecia entre eles, só a justiça própria. Enquanto aqueles homens, doutos, cheios de si, lotados da legalidade e religiosidade que nada sabiam sobre o Messias que eles ainda esperavam, o ex-cego estava cheio da verdade, na simplicidade de quem teve lodo nos olhos e os lavou com água. Enquanto todos discutiam sobre algo que não conheciam, pois nunca se relacionaram com a verdade, apesar de todos os seus esforços, o curado tinha toda a verdade em seus olhos: “Se é pecador, não sei; uma coisa sei: eu era cego e agora vejo” (v.25).

O evangelho é essa verdade tácita, clara e indiscutível. Discutível são nossos padrões, achômetros, senso de justiça, modelos, instituições, nós mesmos. É tudo isso que, muitas vezes, nos impede de ver a simplicidade de um Deus que usas lodo para curar, não tambores, cornetas e espetáculos para chamar a atenção. Se Jesus fosse um dos fariseus, faria um espetáculo. Se os fariseus fossem de Jesus, se alegrariam com a cura de seu semelhante.

A ironia do texto é que Jesus mostra que cego, de nascença, de fato, não era o curado, mas os fariseus. Aquele homem não fazia sequer 24h que enxergava e já conseguia ver a verdade de modo simples, livre dos ditames, do legalismo: Jesus cura! “eu era cego e agora vejo”. Não era preciso mais nada. Não era preciso sistematizações que, quando tem um fim em si mesma, para nada servem a não ser para deturpar, distorcer e desviar a atenção do que realmente importa.

Todos nós nascemos cegos, mas nem todos continuam assim. O triste é ver aqueles que dizem terem tido um encontro com Jesus não perceberem que o evangelho é a mensagem simples do ser e não do fazer, ter e acontecer. Como é bom saber de apenas de uma coisa: “eu era cego e agora vejo”. Como é bom ter as coisas de modo simples diante de nossos olhos: Jesus trabalha para a glória de Deus e eu existo para a glória de Deus. Vivo essa verdade; relaciono-me com essa verdade, porque sou salvo, liberto e remido pelo sangue de Jesus, o homem que cura passando cuspi e terra nos olhos de um pobre cego.

Comentários

  1. Perfeito!
    Parabéns, esse texto é muito profundo.
    Te amo sempre! bjos.

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  2. Meu amor, muito obrigado por seu comentário exagerado nos adjetivos e no amor.

    Te amo muito!

    Beijos

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