Predestinação, vamos tentar chegar lá?


Faz um bom tempo que não posto algo em meu blog. A correria do dia a dia tem me afastado dessa atividade – escrever – que tanto gosto. Não tive tempo nem de falar sobre a Reforma no dia 31, pois estava envolvido com as comemorações de meu presbitério, que por sinal sou o presidente.

Desde minha última postagem muita coisa tem acontecido e até já vislumbrando minha mudança para meu novo lar – estamos realmente ansiosos. Apesar de todos os acontecidos, tenho tido o desejo de escrever sobre algo que dá pano para manga há muito tempo na vida de minhas ovelhas, e na história da igreja: Predestinação.

Essa palavra soa quase como um palavrão aos ouvidos de muitos, ao ponto de alguns palhaços do evangelicalismo brasileiro dizerem que é doutrina do diabo. Não nego a controvérsia entorno do assunto, mas não podemos simplesmente tratá-lo como um bicho de sete cabeças, incompreensível e execrável. Afinal, essa doutrina é ensinada e defendida desde o início da igreja, o que nos leva a crer que, mesmo que não se a aceite, ela merece uma atenção melhor, para que se entenda verdadeiramente do que se trata.

O problema, peso eu, está justamente na atenção dada. As pessoas não gostam da idéia da predestinação e já lançam acusações contra os que creem na doutrina, atribuindo-lhes teologias ou idéias que de fato não lhes pertencem. Confesso que, no início de minha carreira cristã, não aceitava de modo algum essa doutrina. Também confesso que mal sabia o que ela dizia, mas já a recusava. No entanto, quando a estudei no seminário, não tive alternativa diante da Bíblia e hoje sou um desses “seguidores do diabo” – como querem dizer alguns – e creio na Presdestinação.

É vendo as muitas dúvidas que constantemente aparecem nas pessoas que me vem questionar é que resolvi tratar desse assunto aqui. Para começar, portanto, penso que devemos tratar de nossas bases espistemológicas. Apesar desse nome bem feio, a epistemologia tem a ver com as bases de nosso conhecimento. Ela busca responder a pergunta: “como sei que o sei é verdade?” – e outras variações dessa questão. A importância disso está em percebemos a nossa relação com o mundo a nossa volta e a relação de Deus com esse mesmo mundo.

Buscando uma base epistemologicamente bíblica, vemos que logo em seus primeiros versos já temos o que buscamos. Quando lemos que o Senhor criou todas as coisas sabemos que isso o torna bem superior a tudo, mas não costumamos pensar como isso tem de guiar nosso entendimento sobre a relação de Deus com sua criação. Tente imaginar, você, na eternidade, quando nada mais havia – só você. Nesse “não tempo” você decide criar um universo. Nesse universo, que em nenhum aspecto – a não ser como um plano – existe, existirão seres vivos, que por si só se relacionarão com o mundo à sua volta. Quando digo que por si só se relacionarão, quero dizer que eles terão meios pelos quais se relacionar com esse mundo, sem que algo precise os forçar; eles naturalmente terão os meios necessários para fazê-lo.

Continuando a vislumbrar a visão de Deus das coisas criadas, pensemos, então nesse universo todo criado por você. Não havia coisa alguma, nenhum substantivo, concreto ou abstrato. Não havia espaço nem tempo, tão pouco, atributos de qualquer tipo que não fosse os seus próprios e o de não existir, por parte do universo. Sendo assim, quando nosso Pai criou, ele teve não só de estabelecer a matéria, como todo e qualquer tipo de coisa, conceito, relação, atributo, enfim, não importa o que você pense, foi criado por Deus, pois, antes dele criar, não havia nada. Deste modo, podemos ver que a existência criada é uma atividade divina. Isso significa dizer que tudo o que existe está diretamente relacionado a Deus e diante dele. Buscando ser mais específico, podemos inferir que a matéria, o que é espiritual e todo tipo de capacidade, seja sensorial, intelectual ou instintiva, não importa, pense no que quiser, foi criado. Dentro dessa realidade criada, portanto, não posso imaginar nenhum tipo de atividade humana que não seja embasada ou originária no Criador. Vontade, emoções, raciocínio, desejo, andar, ver, sentir, tudo isso é resultado direto e não involuntário ou impensado da atividade criadora do Senhor. Daí já fica difícil imaginar alguma coisa dentro do universo que não tenha o dedo de Deus, seja no sentido de existência ou em sua atividade de vida.

O que quero que fique claro, então, é que não podemos ter uma visão correta de nós mesmos e de Deus sem considerar as consequencias dele ser o Criador de todas as coisas. Todo nosso funcionamento e o modo como nos relacionamos com o que quer que seja foi estabelecido por Deus, pois ele criou e definiu como as coisas funcionariam. Sendo assim, pensar epistemologicamente certo é saber que tudo em nossa existência provém de Deus e está sob seu controle.

No próximo post, veremos que as consequências epistemológicas de Deus ser nosso criador devem não só afetar nossa visão ontológica e funcional do universo, como devem nos levar a ter uma visão teotelológica (um fim, ou finalidade, voltado para Deus).

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