Meu irmão Valdir morreu!

Meu pai/irmão Valdir Campos Lima morreu. Após mais de um mês de sua partida, paro para pensar e descrever o impacto de sua morte para mim. No ano em que me tornei pai, me deparei com a tristeza de que alguém que tanto amo não estará aqui para se alegrar comigo.
Ainda me lembro de quando o conheci. Era uma sexta-feira, estava saindo da quadra de esportes de minha igreja e ele me abordou, um tanto ansioso, sorridente, com seus olhos grandes e sua calça e camisa social, sempre perfeitamente alinhados. Poucas palavras foram ditas, mas essa foi a abertura para que ele me abordasse outras vezes e estabelecesse um relacionamento dos mais importantes para mim: - “Gosto muito de você.” Fiquei desconcertado pelo carinho gratuito de alguém com quem nunca havia falado.
No domingo que se seguiu, ele me abordou novamente. Veio me explicar a razão de gostar tanto de mim, mesmo sem nos conhecermos: – “Sempre lhe vi pela igreja e, além de muito educado, reparei que tem amizade com todos, desde as crianças até os idosos. Lhe vejo em rodas com pessoas de todas as idades. Pensei: ‘puxa, que cara legal’. Ai, resolvi lhe abordar e lhe conhecer e lhe convidar para comer uma pizza após o culto.” Naquela noite, saímos Valdir, Guilherme, Cristine, Caroline e Davi. Fomos à Pedacinho, na 105 sul. Nos empanturramos e já comecei a ver o tipo de homem que ele era: gracioso.
Além de uma bela gorjeta ao balconista que nos servia – que lhe chamava pelo nome -, perguntou-lhe sobre seu filho, que não andava bem. Encontrei aquele balconista passando por minha quadra, 306sul. Me reconheceu, veio falar comigo e passou uns bons minutos falando tudo que Valdir havia lhe feito e ajudado – e era muita, mas muita coisa para contar. Esse tipo de encontro ocorreu diversas e diversas vezes. Inúmeras pessoas que conheci e foram abençoadas por ele, incluindo gente que ele ajudou a sair da rua, conseguir emprego e constituir família.
Ir a casa do Valdir era sinônimo de boa comida e conversas edificantes. Logo que nos conhecemos era melhor, já que ele morava na 305 e eu na 6. Ia sempre lá. Uma das vezes, que me lembro com muito carinho, foi quando ele fez aquela travessa de macarronada ao molho quatro queijos com filet mignon que ele dizia ter ficado ruim. Rodrigo e eu comemos como se não houvesse amanhã – quando terminamos, parecia que não haveria mesmo. Depois, um bom papo, ao som de boa música e oração. Sempre orávamos e conversávamos e um assunto obrigatório era sua preocupação com o Davi – ainda pequeno, naquele tempo.
Davi e Caroline eram os filhos que ele adotou de papel passado. Ele deu a eles o amor que tinha por seu pai, José Carlos, se não me engano. Todos os passos do Davi eram acompanhados com preocupação. Caroline era mais quieta e não gerava tanta preocupação – lhe dava o sossego. Davi sempre foi mais temperamental e agitado. Questionador e sincero, sempre surpreendia o Valdir com suas colocações e questionamentos. Valdir ficava desconcertado. Às vezes, me ligava e perguntava: - “Pode isso? Como ele me fala uma coisa dessas?” Mas Valdir daria a vida por esses meninos e dedicou-se o quanto pode para dar-lhes o melhor – claro que acabou dando uma mimada, mas era porque Valdir não se continha em tanto amor. Não posso criticar, eu mesmo fui alvo contínuo desse amor.
Quando fui para o seminário, experimentaria de sua bondade. Me comprou tantos livros, que acho que até hoje não consegui ler todos. Não pude fazer outra coisa, além de dar seu nome a minha biblioteca particular. Não somente eu, mas tantos outros seminaristas foram abençoados por tão caridoso irmão.
Os anos se passaram, a amizade ganhou contornos de paternidade e sua importância para mim só crescia. Apesar do afastamento físico, pois permaneci na Grande São Paulo, sua contínua intercessão e preocupação, tornava nossos encontros nas minhas mais rápidas idas a Brasília uma obrigação (das prazerosas).
Valdir se tornara como um pai. Alguém a quem eu deveria sempre retornar e contar de mim.

Assim como era contínua sua intercessão, era meu compartilhamento de tudo que acontecia em meu ministério, como quem quisesse deixa-lo orgulhoso. Neste ano de 2017, depois de muito disputarmos quem não esquecia o aniversário de quem, defini minhas férias de tal modo a estar em Brasília para seu aniversário, 8 de abril. Pela graça de Deus, tivemos esse último encontro alegre e festivo. Dei-lhe uma bela camisa de presente e nem sei se deu tempo para ele usar, já que, não muito depois, ele foi internado.
Nesse período de internação, sempre buscava notícias com a Carol. Esses dias eram confusos, pois me alegrava com o pequeno Joaquim que crescia na barriga de minha esposa. Eram dias de tristeza e esperança. Em algumas notícias o quadro piorava, noutras estava estável e nas últimas parecia que ele sairia dessa. Infelizmente, para a saudade, felizmente para o Valdir, não foi o caso – ele foi estar com o Senhor.
Na manhã do dia 10/11 meu irmão David me deu a notícia. Perguntava se não iria e se precisaria de carona ao chegar. Corri o quanto pude e o quanto meu joelho operado permitiu. Me arrumei e fui para o aeroporto – eu tinha de estar lá, eu precisava do desfecho. Consegui um voo e ainda adiantei ao chegar em Congonhas. Finalmente, já na IP de Brasília, esperei na antessala do templo com o pastor da igreja, Rev. Weber e meu antigo pastor, Rev. Adail. A conversa era leve, mas, ao mesmo tempo, sombria, pelo que estávamos por fazer. Meu coração estava apertado. Fiz uma pequena mudança na liturgia, gentilmente permitida pelo Rev. Weber, e fomos para o templo.
Quando vi sua urna, desabei. O choro era constante, só interrompido pelas lembranças. Momento após momento do culto fúnebre me lembrava de nossas conversas e pensava que estava perdendo um grande intercessor. Quando chegou minha vez, fiz como ensaiei em minha mente. Não podia olhar para frente, pois não conseguiria falar. Li 1Co 10.31 – “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. (1Co 10:31 ARA)” – e enfatizei que Valdir foi misericordioso como o Senhor, pois tratava até o mais pobre com carinho; foi gracioso como o Pai, pois doou sem olhar a quem; foi amoroso como Deus, pois adotara a tantos. Com ele aprendi que glorificar a Deus é refletir seu caráter. Não falei mais, não conseguia. Sentei e chorei mais. Ao fim, fui vê-lo em sua urna. Gelado, imóvel, me embrulhou o estômago de tanta saudade.
O último passo foi seu enterro. Fomos ao Campo da Esperança. Lá, naquele dia chuvoso, que parecia chorar a partida de um gigante, um daqueles que o mundo não é digno de tê-lo, cantamos e recitamos o Salmo 23. Lembrei-me de quando havia estado lá com ele há uns 22 anos. Fomos ver o jazigo que ele acabara de comprar para si. Me ocorreu um momento hilário.
Ao sairmos do cemitério, Valdir contratou um “marmoeiro”, para fazer a tampa do túmulo de granito. Pediu que a fizesse com os dizeres: “Na vida, nada se perde, a não ser a oportunidade de se fazer o bem.” Fomos embora e, após uma ou duas semanas, ligam desesperado na casa do Valdir – por coincidência eu estava lá com ele: - “Valdir!! Você não morreu?!!” O marmoeiro não só colocou a frase, como também o nome do Valdir. Por uma ironia dessas da vida, um conhecido dele passou por ali e viu e pensou que ele já estava lá.
Rimos da história, mas logo voltamos à consternação daquele momento. Esperamos todos da família chegarem e demos nosso adeus ao meu irmão e pai Valdir Campos Lima. Advogado trabalhista, pai adotivo não só do Davi e da Caroline, mas de tantos que o amor lhe permitiu, acima de tudo, servo de Cristo. SDG

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