Pecado, queda e natureza

A realidade do pecado é dura e cruel. Todos nós somos afetados pelo desejo e pela realização do desejo de fazer o que é errado. Tal situação de vida deve-se a tentativa do homem de transpor os limites impostos por Deus. Conforme Gênesis 3 nos informa, mesmo após ter recebido a ordem de não comer da árvore do conhecimento, Adão desobedeceu e foi expulso do paraíso, passando a experimentar uma nova realidade de vida.
Lembrando bem da narrativa, vemos fatos muito interessantes e pertinentes para o entendimento de nossa situação diante de Deus e das coisas. Adão fora criado por Deus para servi-lo sendo seu representante na terra. Sua tarefa era obedecer a Deus em seu mandato de como deveria ser seu relacionamento com as coisas (dominar, cultivar e guardar: Gn 1.28, 2.15), com o próximo (multiplicar, deixar pai e mãe e formar uma só carne: Gn 1.28, 2.24) e com o próprio Deus (obedecendo aos outros mandatos e não comendo da árvore do conhecimento do bem e do mal: Gn 2.17).
Agindo desta forma Adão sempre teria vida e a gozaria na presença e companhia de seu Criador. Agindo de modo contrário receberia a justa pena pela ofensa cometida, a morte (Gn 2.17). Perceba que Adão era o único homem existente quando Deus lhe deu as ordens, cabendo, obviamente, a ele transmitir aos seus descendentes, bem como a sua mulher, Eva. Essa veio a ser feita de sua costela, de modo que Deus deu ao homem a primazia, fazendo da mulher aquela que auxilia o homem na tarefa que lhe foi imposta.
Na verdade, Deus estabeleceu uma aliança, um pacto, ou, simplificando, um acordo, no qual somente um impôs as condições. Havia tarefas as quais Adão deveria cumprir, caso contrário, receberia a morte. Havia também a promessa de vida para o cumprimento. Isso significa que havia uma relação de benção e responsabilidade, bem como de maldição e pena. Adão não tinha escolha e não poderia mudar os termos daquilo que Deus estabelecera. Sua atitude seria apenas de, gratamente, obedecer àquele que lhe deu a vida.
Como bem sabemos isso não aconteceu. Em Gênesis 3 vemos o encontro entre Eva e a serpente. Essa, mais sagaz dentre todos os animais, confrontou Eva com uma distorção e negação da Palavra dada por Deus. Eva, diferentemente do que muitos pensam, não foi ingênua, ou inocente no sentido de que não sabia o que era certo e errado a ponto de não poder julgar a oferta da serpente. De fato, quando comparamos o que Deus disse e o que a serpente e Eva vieram a dizer, vemos que Eva já começara a distorcer por si mesma as ordens de Deus, mas demonstrando entender que há certo e errado. Se não, vejamos:

Deus: “mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” (Gn 2.17);
Serpente: “Não comereis de toda árvore do jardim?” (Gn 3.1);
Eva: “mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais.” (Gn 3.3);

Veja que cada um apresentou sua versão da verdade. A de Deus, certamente, é a correta, já que ele é quem estabelece o que é e o que não é verdade. A serpente, no entanto, tentou sumir com a restrição imposta por Deus de que não se deveria comer da árvore do conhecimento. Eva, por sua vez, tentou ir mais longe do que Deus havia dito. Tanto a serpente quanto Eva apresentaram distorções da verdade o que, em si, já é uma forma de se afastar de Deus. O passo seguinte foi Eva ter um desejo distorcido, de modo que, na possibilidade de desfrutar de tudo que havia no jardim ela preferiu comer o que o Senhor havia proibido. Eva, reinterpretou a árvore; antes ela era morte, agora ela é "boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento." (v.6)
Tal cobiça foi apenas consumada na ação de Eva, mas já era realidade em seu coração. A oferta da serpente soou muito boa para os ouvidos de Eva que acreditou em suas palavras. Eva, então, compartilhou de seu ato com Adão. Até esse momento, não havia problemas para os descendentes de Adão, pois ele, como representante da humanidade, não havia pecado. Contudo, tal situação mudou quando ele aceitou a oferta de Eva. Ambos abriram os olhos para a maldade e passaram a enxergar o mundo de uma forma diferente.
A nudez de ambos, que era benção e símbolo da comunhão, passou a ser assombrada pelo desejo pecaminoso. De alguma forma o casal passou a olhar-se através de uma realidade distorcida daquilo que Deus havia passado para eles. Veja que desde o início a questão foi que a verdade de Deus foi deixada de lado, e isso se tornou visível pela forma como ambos passaram a se comportar diante da intimidade um do outro. A forma de ver o mundo mudou para ambos. Eles se afastaram da verdade divina e deixaram de gozar a criação de Deus como antes.
A forma de ver a presença de Deus também mudou. Essa presença significava vida, comunhão, benção e prazer, visto que o Senhor era encarado como o grande mantenedor do jardim do Éden. Na nova realidade trazida pelo pecado, o Santo Deus tornou-se objeto de temor do casal, de forma que ele correu da presença de Deus (Gn 3.8-10). A primeira grande consequência do pecado passa a ser sentida pelo casal que, a partir de então, deixa de desfrutar prazerosamente da presença e do farto sustento de seu Criador.
Diante da nova realidade, o casal recebeu de Deus sua nova condição de vida. Além da clara perda da comunhão com o Senhor, eles receberam maldições como resultado de sua rebeldia. Conforme Deus havia dito, o comer da árvore trouxe morte, sendo a primeira a espiritual. Agora, há guerra entre Deus e o homem. Antes era o ser criado à imagem do Criador relacionando-se e seguindo a razão de sua existência, agora, é a mesma criatura vivendo uma relação de dívida para com seu Mantenedor.
Gênesis 3 nos mostra que o homem terá de comer pelo suor de seu rosto (v.19). A fartura do jardim foi substituída pela penúria de se ter de lavrar a terra e sentir dores multiplicadas. É óbvio que Deus continua sendo seu Mantenedor, contudo, a situação dessa manutenção mudou drasticamente. A beleza, facilidade, perfeição e toda aquela situação propícia encontrada no Éden, agora são substituídas pela dificuldade, incerteza e tempos de escassez e fartura sem que se possa garantir nada. Ainda hoje, mesmo com toda a tecnologia e conhecimento de agricultura que temos, experimentamos as intempéries de uma criação caída e que “geme e suporta angústias”, aguardando o dia de nossa redenção (Rm 8.21,22).
Nisso vemos que não só o homem sofreu as conseqüências de seu pecado, mas toda a criação. Aquele ambiente que fora criado para a comunhão, foi alterado para reservar ao homem toda a dificuldade e incerteza que a separação de seu Criador provocou. Isso significa que o mundo catastrófico no qual vivemos é um reflexo da catástrofe ocorrida com o ser humano. Aquela realidade do Éden, bendita e cheia de comunhão com Deus, foi substituída pela separação entre o Criador-provedor e sua criatura.
Deste modo, então, vemos que o pecado, ou o mal não é a ausência de Deus, mas, sim, a distorção de sua criação e de sua verdade aplicada na existência de cada coisa. O mal não existe por si só, mas se fez pela distorção e mudança daquilo que era bom e abençoado. Desta forma, o mal não é auto-existente, mas depende do que existe, portanto, de Deus para ter sua própria existência.
Dentro do ser humano, o efeito foi devastador. Para começar, nos afastamos da verdade divina e não conhecemos as coisas como de fato são. Isso acontece porque não buscamos a Deus para entender o cosmos. Isso significa dizer que o homem enfrenta um problema de conhecimento, pois se afastou da fonte de toda a verdade. Ele não sabe a verdade sobre as coisas, sobre Deus nem sobre si mesmo (Jr 17.9). Nossos olhos estão fechados à verdade, pois nos afastamos da luz. Não temos condições de reconhecer a Deus em sua revelação através das coisas, tão pouco em sua revelação especial, registrada nas Escrituras, já que as coisas espirituais se discernem espiritualmente (1Co 2.14).
Além disso, nossa natureza, criada boa e santa, agora é descrita como sendo desesperadamente corrupta (Jr 17.9).[1] Estamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2.1), com nossos desejos nos tentando todo o tempo (Tg 1.14). Davi poetizou muito bem nosso estado de miséria ao descrevê-lo como sendo de nascença (Sl 51.5). De fato, recebemos em nossa concepção a herança pecaminosa de Adão.
Diferentemente do que muitos pensam, a criança não é inocente. Antes de nascer, todos nós recebemos a culpa do pecado de Adão. Conforme Paulo nos ensina em Romanos 5.12-21, tendo Adão como seu representante, toda a humanidade recebeu por imputação tudo o que se referia a ele. Isso significa dizer que, somos pecadores não porque pecamos, mas pecamos porque somos pecadores. O entendimento bíblico é que o homem age segundo sua natureza.
Repare, por exemplo, no texto de Efésios 2.1-10. O texto inicia com a descrição de Paulo de como nós éramos antes da obra de Cristo. Para o autor inspirado, “éramos”, “por natureza”, “filhos da ira”. Duas palavras destas últimas apontam para o nosso estado: éramos e natureza. Além disso, o texto prossegue ensinando que não só somos assim por natureza, como também agimos segundo essa natureza, andando “segundo o curso deste mundo”, “segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que atua nos filhos da desobediência” e segundo as “inclinações de nossa carne”. Conforme é nossa natureza, assim nascemos e assim agimos.
        O outro lado desse fato, é que nossas atitudes mudam junto com a mudança de natureza. Paulo não só descreveu nosso estado de miséria, como também descreveu nossa regeneração. Assim como em nosso estado de pecado agimos erroneamente, ao sermos regenerados, andamos em boas obras, as quais Deus “preparou de antemão para que andássemos nelas” (vv. 5-10). Isso significa que nossas ações mudaram de acordo com a restauração que ocorreu em nossa natureza.



[1] Nesse texto de Jeremias vemos a descrição do coração do homem, no entanto, temos de entender a passagem nos termos que um hebreu entenderia. Coração para o judeu não se refere ao órgão ou ao centro das emoções, mas à mente, entranhas, também ao músculo que bombeia o sangue, bem como as emoções, ou seja, falar do coração para o judeu é falar da base da existência; daí entender que Jeremias se refere à natureza humana.

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