Epicuro

Epicuro nasceu entre 342 e 341 a.C. em Samos. Foi para Atenas por volta de 321 a.C., onde fundou sua escola em 306 a.C. em sua casa. Em seu Testamento, deixou o jardim de sua casa “para todos os que assistam a filosofia em minha escola” (EPICURO, 1994, p. 3). Possivelmente, teve influências de Platão e Aristóteles, mas foram as descobertas do oriente e a escola peripatética de estudos naturais que muito contribuíram para sua visão de mundo. Junto com Demócrito – não por meio de uma parceria, necessariamente, mas com algum relacionamento –, desenvolveu a filosofia que estruturou o empirismo. (Cf. ibidem, p.  XIV)

A realidade para Epicuro era fruto da matéria. Em sua carta a Heródoto ele afirmou: “Em primeiro lugar, nada nasce do que não existe, porque se tudo nascera de tudo (de si mesmo), não haveria necessidade de sementes.” (Epicuro, 1994, p. 9) Para ele o universo sempre foi e sempre será da forma como é, pois tudo que há está nele e nada há fora para causar alguma mudança. (Cf. Ibidem, p. 10) Adiante, Epicuro afirma que a existência dos corpos celestes é comprovada pelos sentidos. (loc. cit.) Para ele a percepção da realidade se dava por meio de emanações de átomos vindos dos objetos que se encontram com os sentidos humanos. (Cf. Ibidem, p.  15-16) Olavo de Carvalho colocou bem o pensamento de Epicuro:
Segundo Epicuro, o corpo é material, a alma também é material, e até os deuses são materiais – hevendo apenas, entre estes três níveis de seres, a diferença de maior para menor densidade da dita “matéria”. Como tudo é material, só o que é material chega ao nosso conhecimento... pois aquilo que não tem materialidade não poderia afetar nossos sentidos. (CARVALHO, 2015, p.  56-57)

Sendo o conhecimento fruto da relação sentidos-sensações causada pelo movimento dos átomos, Epicuro construiu seu conceito de felicidade nesses termos. Segundo ele, a felicidade consiste na compreensão, ou no “conhecimento da origem dos fenômenos que contemplamos no céu e em tudo o que a ele se refere, até alcançar uma ciência perfeita” (Ibidem, p. 33). O conhecimento é segurança, entendimento, experiência, alcançada com o tempo. Epicuro, em suas Exortações, via grande vantagem do velho sobre o moço, pois o primeiro já possui com segurança os bens da vida, pelos quais o moço ainda luta, com dúvidas e mudanças constantes. (Ibidem, p. 78-79)

A felicidade, portanto, está na contemplação. Ir atrás de algo é ter necessidade e necessidade é sofrimento. O que se busca são as boas sensações, alcançadas quando se tem conhecimento mais profundo das coisas, ou maturidade. Olavo de Carvalho resumiu bem o pensamento de Epicuro sobre o bem supremo:
O prazer é o bem supremo, que a busca do prazer é a causa e finalidade das nossas ações, que o maior dos prazeres é o ócio contemplativo e que os deuses são o modelo mais perfeito do ócio contemplativo, motivo pelo qual devemos admirá-los. (2015, p.  58)

Para uma vida de sensações, não é surpresa que a busca do prazer nas sensações seja o bem supremo. Numa visão materialista epicúrea, o objetivo da vida é buscar as melhores sensações e estas não estão na intensidade, mas em poderem ser vividas sem que isso gere as sensações ruins. Por isso, a contemplação é o objetivo, já que conhecer não gera grandes desdobramentos, como tantos outros prazeres da vida.

Em Epicuro, portanto, tem-se o homem voltado para si, para suas sensações. Para ele não havia mais nada, só o que se tem aqui, portanto, buscar o que aqui se pode ter é o sentido da vida, ainda que esse sentido não seja o de ter muito, como ele mesmo recomendou a Idomeneo (Epicuro, 1994, p. 93). Sobre a singularidade da vida, disse em suas Exortações:
Nascemos uma vez, pois não é possível nascer duas vezes. E no é possível viver eternamente. Tu, ainda não sendo proprietário de tua manhã, pretende estender sua felicidade. Mas a vida se consome numa espera inútil, e a cada um de nós a surpresa da morte sem ter desfrutado da tranquilidade. (Ibidem, p. 78)


Adiante, será avaliada a ligação deste pensamento com a igreja evangélica brasileira, a fim de se verificar a presença desta forma de materialismo em seu meio. Por agora, um salto na história é necessário, de Epicuro a Karl Marx.

Atomismo e as sensações na fé evangélica brasileira

Como visto na exposição sobre Epicuro, o materialismo incipiente da Grécia trouxe como consequência a ligação entre realidade e sensações. É visível no meio evangélico brasileiro a constante busca pela tangibilidade da espiritualidade. Há muitos recantos do evangelicalismo brasileiro que busca ter experiências, sensações que alimentem a fé e a noção de que, pela sensações, se está tendo um contato com o divino.

Segundo o autor cristão John MacArthur, a busca por experiências tem ligação direta com o existencialismo, forma de materialismo. Segundo ele, “o Existencialismo é um parecer filosófico que declara ser a vida sem sentido e absurda. De acordo com essa definição, deveremos ser livres para fazer o que bem entendemos.” (MACARTHUR, 1998, p. 61, grifos do autor) Isso aponta para o pensamento de Nietzsche, quem só via sentido na vida na busca pelo prazer, sem qualquer compromisso com a moralidade, ou seja, prazer sem reflexão. Adiante, MacArthur acrescenta: “Não responde a nenhuma autoridade; ele é sua própria autoridade. Aquilo que o atrai, aquilo que o ‘deixa ligado’ é a verdade para o Existencialismo.” (Ibidem, p. 62, grifos do autor)

A descrição do autor tem foco no evangelicalismo americano e numa filosofia mais atual que a epicurista. Contudo, o cenário brasileiro vai na mesma direção e, em desacordo com o MacArthur, deve-se buscar as raízes deste comportamento tão voltado às sensações em Epicuro. Sua ênfase no conhecimento como fruto da sensação, ou do encontro do átomo com os sentidos humanos tem mais a ver com o que é visto, tendo em foco a importância dada à experiência, especialmente nos meios pentecostais e neopentecostais. O teólogo Augustus Nicodemus Lopes, fez a mesma ligação epicúrea entre experiência e conhecimento, ao descrever a autoridade do movimento de Batalha Espiritual como advinda das “experiências ocorridas nos gabinetes pastorais, nos campos missionários e nos próprios simpósios da ‘batalha espiritual’.” (LOPES, 2001, p. 56, grifos do autor)

A doutrina pentecostal entende que a experiência é própria da igreja originada conforme Atos dos Apóstolos. Contudo, a experiência como meio de conhecimento está no cerne do pentecostalismo e do neopentecostalismo. Gutierres Siqueira, em seu livro sobre o pentecostalismo, no qual defende a teologia pentecostal, reconhece a atual dificuldade deste meio:
A era pós-pentecostal não é tradicional ou cessacionista, mas simplesmente ignorante sobre a sua própria doutrina. É emocionalista, mas com uma emoção canalizada na mensagem agradável aos ouvidos. O pós-pentecostalismo é ainda parecido com o antigo em termos de “anarquia litúrgica”, mas sem referência no dogma. É a era do pentecostalismo abraçado ao pós-modernismo. Sem firmeza doutrinária não há movimento que sobreviva muito tempo. (SIQUEIRA, 2015, p. 25)

Há um abandono das bases doutrinárias iniciais e uma ênfase na emoção. O aspecto espiritual não está mais alinhado com a doutrina, mas com a materialidade, ou a tangibilidade oferecida pela experiência. Essa mesma constatação fez Lopes em sua avaliação do material de Neusa Itioka, no qual, “frequentemente usa experiências pessoais como fonte autorizada de conhecimento.” (LOPES, op. cit., p. 58)

O pastor de jovens Luciano Barreto, da Igreja Batista da Lagoinha, em um vídeo intitulado Como ter experiências com Deus, define culto como diversão. (BARRETO, 2012) Adiante na pregação, ele demonstra um meio de experiência repleta de simbolismos e imagens palpáveis de coisas espirituais. Ele conclui essa linha dizendo: “A gente não se apaixona pelo que a gente acha feio. Muitas vezes, não temos experiências com o Senhor, porque nossa imagem do Senhor tem que mudar.” (Ibid)
Em resposta à pergunta de uma internauta sobre se irá sentir algo se tiver o Espírito, R. R. Soares fala sobre a relação espiritual com a ação humana. Em sua teologia de tomar posse das bênçãos de Deus, ele afirma que a bênção dos dons espirituais, como o falar em línguas, é algo a ser tomado posse. (SOARES, 2005) Há uma ligação da dimensão espiritual com o modo que o crente age, a fim de mover a realidade espiritual.

A ênfase em que o crente passe por experiências pode ser vista em cultos e celebrações do meio evangélico, as quais enfatizam ações e interações do fiel com objetos e símbolos. No site de notícias evangélicas, Gospel Mais, há o relato de uma fiel da Igreja Mundial do Poder de Deus, que diz ter sido curada ao comer um pedaço de uma talhinha vendida na igreja. (Cf. CAVALLERA, 2011) Essa toalhinha é utilizada para ser passada no suor do Apóstolo Valdemiro Santiago e, posteriormente, passada no enfermo. Esse simbolismo denota uma necessidade experiencial e apego ao líder religioso, trazendo o espiritual ao palpável e visível.

É comum que a pregadores conduzam sua plateia a terem experiências que vá além do ouvir um sermão. Uma rápida busca por vídeos na Internet traz uma infinidade de vídeos que exibem pessoas em cultos evangélicos dançando, rodopiando, gritando, chorando, rindo, engatinhando, falando em línguas, isso é, sentido em seus corpos sua espiritualidade. Conforme concluiu em sua pesquisa sobre o carisma do pregador pentecostal: “devem lançar mão de estratégias que tornem o evangelho mais atrativo e dinâmico em meio a uma igreja cada vez mais exigente e embasada no experiencialismo.” (FERREIRA, 2012, p. 9)

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