Ovelhas e ironias: um lembrete para entendermos a Bíblia

Dia desses, em um de nossos estudos de quinta-feira, fiz um comentário sobre a parábola da ovelha perdida. Minha fala causou estranheza a alguns irmãos que pensavam que a parábola tivesse outro sentido, ou melhor, tivesse outro pano de fundo.
Nesta parábola contada em Lucas 15.1-8, vemos Jesus falar que deixaria 99 ovelhas no deserto para procurar uma ovelha perdida. Contudo, Cristo fala isso perguntando: “Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?” (v.4) Diante desta pergunta do Senhor, dei a resposta: “Ninguém!”
Os irmãos olharam desconfiados, pois todos leem esse texto, como se Jesus estivesse falando algo óbvio e corriqueiro. Mas pense comigo: quem deixaria 99 ovelhas no deserto, sem sua supervisão, para buscar apenas uma?! Entendeu? Jesus estava falando um absurdo. Algo para confundir a sabedoria deste mundo e responder aos escribas e fariseus que o questionavam por andar com pecadores.
A dificuldade para compreendermos essa passagem – e tantas outras – é porque esperamos uma exatidão no linguajar bíblico que se não pretendeu ter. Lembremos que a Escritura é um livro humano, sim, humano em sua linguagem e forma de comunicar. Ela é divina em seu conteúdo, em suas verdades, naquilo que está revelando, mas comunica tudo isso em nossa forma finita e própria de falar. Nesse sentido, é bom lembrarmos que usamos ironias, exageros, metáforas e outras figuras de linguagem, que estarão presentes na Bíblia.
Na parábola mencionada, a ironia é bem presente. Jesus fez uma pergunta obviamente absurda com uma resposta óbvia –”não” –, mas ele vai noutra direção e diz que Deus, sim, este vai atrás daquela única ovelha perdida. Ele queria afrontar aos escribas e fariseus, que pensavam ser os mais próximos de Deus e dignos de sua presença, afirmando que Deus vai atrás justamente daqueles que eles estavam desprezando e demonstrando nenhuma misericórdia. Jesus estava deixando para trás os que pensavam ser os “queridinhos” do Senhor.
O infinito e todo sábio Criador comunica-se com sua criatura. Ele não usa uma linguagem que não possamos entender, mas usa toda sua sabedoria, para mostrar, em nossa linguagem, o quanto somos loucos ao pensarmos por nós mesmos. Temos de pensar após Deus, seguir seus pensamentos e prestarmos atenção em nossa própria língua e no contexto das passagens, para entendermos bem o que temos diante de nós. Estude a Palavra, conheça sua língua!

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