As Inversões nossas de todo dia

Ahhhh, a inversões diárias de nosso tempo. Eu ia postar mais um texto sobre piedade, mas a cena que presenciei ontem na novela das 21h – com padrão Globo de qualidade – me motivou a falar um pouco sobre essas inversões.

A cena era o apoio que um dos protagonistas da história dava à saída de sua filha de casa, após uma briga com a mãe. Na cena de gratidão, numa pousada que serviria de novo lar para a filha, esta abraça o pai e diz: - Brigada, pai. Você é mais que um pai, é um amigo.

Achei tão absurdo que perguntei à minha esposa se foi isso mesmo que ouvi. Logo me veio a mente essas inversões diárias, quando o que é principal é passado para trás pelo que é secundário. Nesse caso, o pai se torna menos que um amigo. O amigo passa ser aquele que demonstra amor, carinho, cuidado e compreensão. Pai é o cara que trabalha, para ganhar dinheiro, pergunta aonde você vai ao sair e dá uns pegas quando você sai da linha.

Talvez esses que praticam tal inversão ganhem argumentos para tanto com a crescente ausência de pais que não se dedicam à educação de seus filhos. Contudo, o correto seria dizer que esses pais omissos funcionam mais como amigos, do que dizer que os pais mais atenciosos agem como amigos. Pois, no caso visto na novela, o amigo ganha status mais alto que o pai e induz as pessoas a darem mais atenção ao que diz o amigo do que ao que diz o pai.

Parece algo isolado, mas não é difícil encontrarmos a situação onde os amigos têm mais influência sobre a pessoa, que seus próprios pais. A tristeza é que a sociedade tem dado apoio a tal inversão e alimentado com pequenos recados, como o dado na novela, o comportamento de inverter as coisas, levando à desvalorização da família e de tantas outras coisas.

Bom, que o mundo faça isso não é lá uma surpresa – afinal, o que esperar de um mundo caído? O problema é que as inversões se tornaram um lugar comum na igreja e as vemos por todos os lados. As pessoas invertem o amor a Deus pelo amor à igreja. A Igreja (os crentes) foi invertida pela igreja instituição (o prédio). Os dons, que me levam a dedicar-me à obra de Deus, foram invertidos pelos dízimos, que me ajudam a pagar os salários de obreiros que cuidam de tudo. Trabalhar para Deus tornou-se o cumprir as diretivas denominacionais, observando-se os relatórios, as confecções das atas, as diretorias, enfim...

Não sou contra nenhuma dessas coisas, desde que estejam em seu devido lugar. A inversão prejudica, torna a coisa em idolatria e deixa o mais importante para depois. Principalmente, a inversão nos conduz para longe da vontade de Deus. Hoje, na igreja, criança vem na frente, não os mais velhos. As pessoas se dedicam mais às questões internas do que a propagação do Reino de Deus – nos fechamos em nossas denominações. Trabalhar para Deus é ir ao culto e à escola dominical. Entramos numa “sinedoquezação” da obra – invertemos o todo pela parte, de modo que a parte se torna o todo e a coisa se torna maligna.

Desta forma, aquilo que começou lá na novela, como uma simples crítica ao texto do autor, torna-se um alerta às nossas inversões de todo dia. Zele por manter o foco e não deixe que o pecado lhe dê um invertida, levando você a acreditar que as coisas podem ter uma ordem distinta a dada por Deus.

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