O cinismo pós-moderno e a frustrada tentiva de Lordelo

Michael Horton, grande autor protestante, diz no início de seu livro, Creio: “As certezas presunçosas da modernidade já se passaram; foram substituídas pelo cinismo irreprimível do pós-modernismo.” Que modo sucinto e acertado de resumir nossos tempos! Enquanto que nos tempos que marcaram a ascensão da ciência vimos a inversão epistêmica do misticismo para o racionalismo, nossos tempos marcam a consequente relativização da moralidade e da ética.

Atualmente, ostenta-se a imoralidade e a completa falta de padrões. Esta é consequência de um homem liberto de Deus pela ciência. O grande problema é que a ciência só ensinou como ignorar a Deus, mas não ofereceu respostas que substituíssem as necessidades humanas por limites, disciplina, padrões e propósito. Por isso, vemos uma sociedade “Frankstein”, que mistura partes de um homem despreocupado com o pecado e a visão do Criador sobre isso, com partes de um homem que não encontrou na ciência as respostas prometidas e que retorna para a ideia de divindade, embora vazia de um deus – pelo menos um que não seja o próprio homem.

Formamos uma sociedade falsa em espiritualidade e falsa em cientificismo. A espiritualidade não vem de cima, mas de dentro. O cientificismo não mais busca respostas ou a verdade, mas somente desculpas e argumentos que aquietem a culpa de um homem egocêntrico. Neste ponto, nosso cinismo se torna irrepreensível, pois ele vem com ares de ciência.

O monstro pós-moderno “Shelleyano” está armado da espiritualidade que só serve para satisfazer o ego humano, que se vale de argumentos pretensamente científicos, que legitimam aquilo que dantes era ilegítimo.

Esse cinismo é fétido como as partes do monstro da história de Mary Shelley. Ainda que o homem de hoje se diga correto, aberto e tolerante, ao nos aproximarmos, vemos a monstruosidade de suas partes que não suportam nenhum tipo de oposição e logo desfere golpes descomunais e mortais contra todos que percebem a podridão de suas partes, artificialmente unidas.

Em 17/02/11 pudemos ver um desses golpes. O Sr. Carlos Lordelo, que tem um blog no Estadão, tentou criar uma polêmica entorno do kit para calouros, distribuídos pelo IPM (Instituto Presbiteriano Mackenzie) (veja aqui). Ele expôs o conteúdo do kit, no qual há presença de uma Bíblia, e tentou ligar esse fato – com a típica artificialidade pós-moderna – com a polêmica entorno do texto contra a lei da homofobia, que estava presente no site do IPM.

O tiro saiu pela culatra. Na tentativa de ressuscitar um morto, isto é, a polêmica sobre o texto da homofobia, o autor acabou chamando a atenção dos mais variados grupos de pessoas (principalmente protestantes), para sua atitude nada tolerante com a opinião de uma instituição centenária e confessionalmente Presbiteriana. Os leitores, em sua maioria, apoiaram o IPM.

O cinismo de Lordelo é digno de nota zero em redação, já que ele anuncia no título uma coisa e fala de outra. Assim como seu texto, ele está perdido nesse mundo sem absolutos e cheio de imoralidades e, ao invés de reconhecer isso, prefere atacar quem tem clara noção de para onde está indo, para que sua falta de direção não seja aparente. É o cinismo hipócrita e irrepreensível.

Nossa sociedade está afundando em permissividade, fruto de tempos sem Deus, porém, cheio de ciência, mas que tanto se tornou carente de uma noção transcendente. Agora, o que temos é o vazio intelectual, moral e ético, que se ufana da liberdade, mas que não percebe a prisão em que se enfiou.

A liberdade de expressão que o Sr. Lordelo quis negar ao Mack, mas que quer para todas as outras minorias, nada mais é do que fruto de um pensamento cativo. Cativo pelas paixões, vícios, carências e uma profunda necessidade de se tolerar de tudo, em busca de aceitação. O homem não se vê mais nos braços de Deus, então, o que lhe resta, é se ver nos braços de todos os outros; neste caso, quanto mais, melhor, por isso, “não afugentemos ninguém!”

Temos de ter cuidado com essa hipocrisia pós-moderna de tolerância, onde todos são bem vindos, menos quem pensa diferente. Nossos tempos não são marcados pela possibilidade de se pensar diferente, mas de se pensar de modo inconsistente, para que se possa adaptar todo tipo de pensamento a outros, a fim de se ser politicamente correto. O cristão não pode cair nessa armadilha cínica. Relativizar nossa fé, doutrina e ética é perder nossa ação profética nesse mundo caído.

Tremulamos a bandeira de uma verdade absoluta. Ainda que nossa verdade nos ensine que não é por força nem por poder (Zc 4.6), temos de nos fortalecer, olhando para o Autor e consumador de nossa fé (Hb 12) e estarmos prontos para essa verdadeira batalha intelectual, que usurpa o raciocínio e busca formar repetidores e pessoas prontas a aceitar a tudo e a todos. Questione, pense, conheça, aprenda, não só sobre o que pensamos, mas sobre o que todos pensam, e não engula a artificialidade de argumentos e pretextos como visto no texto de Lordelo.

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