Solo Christus

Ontem comemoramos os 493 anos da Reforma Protestante, bom, pelo menos, em minha igreja o fizemos. Devido às correrias, não pude postar nada, como era meu desejo, mas, como diz o “velho deitado”: - “antes à tarde do que nunca”.

Por duas vezes, uma ontem e outra há duas semanas na Igreja Presbiteriana de Osasco, preguei com ênfase no slogan: Solo Christus. Essas duas palavras latinas servem para resumir a doutrina de que somente Jesus Cristo é nosso mediador diante de Deus. Qualquer um que conhece a história sabe a importância desta verdade bíblica.

No tempo da Reforma Protestante, a Igreja Católica vendia indulgências, afirmando ter o controle da salvação, as chaves do céu. Apoiado na infabilidade papal e no desejo de construir a basílica de São Pedro, Leão X tinha em Tetzel um de seus grandes coletores de fundos. Com frases como “ao soar da moeda no fundo do gazofilácio uma alma sai do purgatório”, ou coisa do gênero, Tetzel arrecadava de quem podia e de quem não podia pagar. As pessoas realmente acreditavam que se não fosse pela igreja, ou melhor, pelo clero, já que na teologia católica o clero é a igreja, não alcançariam a salvação.

A confiança era depositada num clero que estaria cumprindo seu papel. As pessoas não se viam diante de Deus sem ele. Até bem pouco tempo essa separação Igreja-clero e fiéis era marcada por uma espécie de cercado que dividia o altar, com os clérigos, dos bancos, com os fiéis. O fiel ficava sentado, vendo e ouvindo algo que ele não entendia, pois as missas eram em latim, confiando tão unicamente que aqueles sacerdotes, que celebravam as missas, os estavam ligando a Deus.

Esse modo de se fazer as coisas é uma clara usurpação do papel de Cristo como nosso sacerdote. O pensamento protestante buscou retornar ao ensino de 1 Pedro 2 e mostrar que todos somos sacerdotes em Cristo, ou seja, não precisamos de nenhum outro ser humano para nos achegarmos a Deus, por sermos todos, em Cristo, sacerdotes, com acesso contínuo perante o Pai (Hb 4.12-14). Isso significa que nosso sacerdote é o próprio Senhor, que nos usa a todos, isto é, sua igreja, para realizar sua obra, não nossa obra.

Tudo depende dele, Jesus. Somente ele é nosso sacerdote. Somente ele nos leva à presença do Pai. Somente nele somos o que somos, “pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração.” (At 17.28) Ninguém mais pode colocar-se como um meio, como algo estritamente necessário à nossa salvação. Em Hebreus 7, texto de minhas pregações acima mencionadas, vemos que ninguém conseguiu fazer a obra que Cristo fez. Sejam os sacerdotes levíticos, ou Melquisedeque, nenhum deles se mostrou capaz de realizar a obra que só o Senhor pode fazer.

Nosso Redentor é único como sacerdote. Assim como Melquisedeque, seu sacerdócio não veio por força da lei, tão pouco por herança paterna, mas pela ação direta de escolha de Deus. Contudo, somente Cristo é aquele que permanece ativo em seu sacerdócio, por ter vida indissolúvel. Além disso, nenhum outro sacerdote trouxe real salvação como o fez nosso Redentor, ao realizar sua obra de uma vez por todas, por oferecer algo realmente satisfatório a Deus: um cordeiro “santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus”. Por ser tão perfeito e oferecido tanta perfeição, nosso Salvador fez a obra de uma só vez, não sendo mais necessária repetição alguma.

O texto nos afirma que Jesus ainda é nosso sacerdote em plena atividade; outros textos dizem a mesma coisa, como Romanos 8.30-39 e 1 João 2.1. Não há base bíblica para afirmarmos que alguém precisa de alguém, a não ser no que se refere ao crescimento espiritual, diante do fato de que recebemos dons para mútua edificação. Fora esse aspecto, todos temos o mesmo acesso e possibilidade diante de Deus. Não há outro mediador, caminho ou coisa que o valha. Somos todos chamados a entrarmos no Santo dos santos, sem véu, sem divisões entre clero e fiéis sem nenhum anteparo além do sangue de nosso sumo sacerdote, Jesus.

Você pode pensar que essa verdade já está bem difundida em meios não católicos, mas, se olharmos bem para nosso cenário evangélico, veremos muitos sacerdotes querendo tomar o lugar de nosso Redentor. São muitos os que ensinam ter autoridade espiritual sobre suas “ovelhas”, ou melhor seria dizer “vítimas”. Também vemos muitos se dizendo apóstolos e até “paipóstolos” – meu, olha a imaginação, o nível da esquizofrenia desse povo – que afirmam ter o poder de dar cobertura e proteção espirituais. Pessoas acreditam e se submetem aos desmandos desse mercenários do mundo evangélico e não percebem que estão retornando ao erro que foi denunciado no século XVI, e em outros anteriores.

A reforma foi há 493, mas seus ideais ainda são extremamente relevantes. São verdade eternas, fundamentais, não por terem sido defendidas por Lutero, Calvino e outros grandes teólogos protestantes, mas por serem bíblicas. O esforço desses homens foi o de retornar às Escrituras. Não podemos deixar tal esforço passar em branco, pois, para alguns desses heróis da fé, o esforço por essas verdades lhes custaram a vida, como o foi para John Huss.

Não permita que ninguém se coloque entre você e Deus que não se chame Jesus Cristo e tenha nascido da então virgem Maria e que tenha chamado doze homens para segui-lo e mudar o modo como nos relacionamos com Deus - no caso de alguém dizer que se chama Jesus Cristo e tudo o mais. Não pense que seu pastor, bispo, ou quem quer que seja tem algo com o Pai que você não tenha, como uma oração mais forte ou alguma espécie de “pistolão espiritual”. Você tem acesso ao Pai pelo novo e vivo caminho, verdade e vida: nosso único sacerdote, Jesus.

SOLI DEO GLORIA

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