Falando de restauração

Logo após o homem ter quebrado o pacto que havia firmado com Deus, o próprio Senhor providenciou o concerto da situação. O Criador não havia desistido de ter suas ordens cumpridas. As leis dadas por ele, as quais estabeleciam a forma correta de relacionamento do homem com as coisas, com o próximo e com Deus, tinham de ser satisfeitas. Para que tal ocorresse, assim que a maldição foi anunciada, a benção foi prometida.

Em Gênesis 3.15 vemos o gérmen do evangelho sendo pregado: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. A obra da serpente seria desfeita, conforme nos relata a narrativa. Nascido de mulher, viria um descendente de Eva que, ao invés de ceder à obra da serpente, iria pisar em sua cabeça.

Nesse momento ainda não se teve muita informação. Adão e Eva receberam a palavra de Deus, mas sem o entendimento exato do que viria pela frente. A revelação de Deus sobre o que viria ainda estava no princípio. Nossos pais não sabiam, mas Deus havia traçado um plano na eternidade. Antes mesmo da queda, Deus já havia estabelecido um salvador para a humanidade caída. Paulo afirmou claramente isso quando escreveu:

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, 4 assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; (Ef. 1.3,4) Isso deixa claro que o pecado não foi uma surpresa para Deus. Se houve uma escolha antes da fundação do mundo, é porque haveria uma queda. Dentro do que vimos sobre o ser de Deus, percebemos que sua intenção de se revelar por meio e para sua criação incluía o pecado. Por mais estranho que isso possa parecer, não é difícil de vermos o papel do mal em tudo isso.

Sendo o intuito de Deus o de revelar-se, obviamente, sua ira, graça, misericórdia e justiça também estão incluídos nessa intenção, pois fazem parte dos atributos divinos. Sendo assim, tente imaginar um meio do Senhor revelar todas essas coisas sem que houvesse o pecado. Somente num contexto de queda é que Deus poderia mostrar ira devido a ofensa cometida, graça para abençoar o pecador merecedor da morte e misericórdia para não fazer com o pecador o que ele merece. Mas ai perguntaríamos: - “e a justiça?”; essa é vista no fato do Pai enviar o Filho, para não só morrer pagando dívidas, mas obedecer alcançando méritos que são aplicados aos que crêem.

Cristo é a grande restauração da humanidade. Ele obedeceu todas as leis dadas por Deus ao homem desde o Éden. Ele relacionou-se com o Pai do modo correto. Tinha acesso direto e o exaltou conforme o homem deveria fazer. Além disso, ele amou e zelou pelo próximo, curando e matando a fome de muitos. E quanto às coisas, Jesus dominou a criação, não sendo dependente em nada dela para ser o que era. Ele não foi acometido de nenhum tipo de vício ou avareza. Usou todas as coisas para que servissem ao homem e a Deus, sem se deixar dominar por nenhuma delas.

Na pessoa do redentor temos a restauração necessária. Tudo o que Adão deveria ter feito, Jesus o fez. Assim como fomos representados por Adão em seu pecado, também fomos representados por Cristo em sua obra. Vivemos hoje em um tempo no qual podemos ver com clareza o resultado da promessa feita ao casal por ocasião de sua expulsão do paraíso. Nossa esperança de restauração é baseada na promessa do Deus-homem que disse que voltaria. Temos o Espírito Santo testificando com o nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16). Não precisamos temer, pois a obra que Deus iniciou, será terminada (Fl 1.6).

Poderíamos dar uma boa olhada em Romanos 8.26-39. Acompanhe esta análise com sua Bíblia. Repare que nos versos anteriores Paulo vinha explicando a obra do Espírito em aplicar a obra de salvação, de modo a alimentar a esperança pela mesma. A partir do verso 26, Paulo passa a demonstrar razões para que tenhamos segurança e plena certeza de nossa salvação. Depois de afirmar que o Espírito testifica com o nosso espírito sobre nosso estado diante de Deus, Paulo passa a falar de mais uma obra dessa pessoa da trindade em nossa vida, a intercessão.
O pecado que há em nós é algo tão devastador, que nem mesmo sabemos como falar com Deus: Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. (v.26)

No entanto, mesmo nesse estado contamos com a obra de Deus para nos auxiliar, como pode ser visto no verso. No verso 27 vemos que a intercessão do Espírito não é apenas uma questão funcional, como se a forma fosse o problema, mas, antes de tudo, é uma questão de conhecimento. O Espírito e Deus Pai trabalhando juntos, de modo que o Espírito intercede segundo a vontade do Pai. A partir desse incentivo e segurança, Paulo passou a demonstrar a profundidade de da obra do Pai, mostrando que a intercessão segundo a vontade do Pai é motivo de grande conforto.

No verso 28 lemos: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.” Para Paulo, ainda que não saibamos como orar, sabemos que todas as coisas cooperam para o nosso bem, se de fato amamos a Deus. Essa consciência nos leva a confiar na obra do Espírito, e foi explicada nos versos seguintes.

A partir do verso 29, Paulo passa a descrever de que modo todas as coisas cooperam para o nosso bem. O verso é claro ao dizer que somos predestinados, ou seja, temos nosso destino assegurado por Deus, definido anteriormente. Alguns querem dizer que esse verso apenas mostra que Deus viu o que iria acontecer e escolheu de antemão aqueles que viriam a crer. Contudo, essa interpretação não leva em consideração muitos detalhes presentes no texto.

O primeiro detalhe é que conhecer de antemão, para um hebreu, ou judeu, não significa ver antes ou saber da existência antes. Tomemos como exemplo Mateus 1.25: “Contudo, não a conheceu, enquanto ela não deu à luz um filho, a quem pôs o nome de Jesus”. Obviamente, esse “a conheceu” se refere ao relacionamento entre José e Maria. Segundo o texto, se seguirmos a interpretação daqueles que dizem que conhecer é ver, então, Mateus disse em seu evangelho que José e Maria não conheceram antes do nascimento de Jesus. Sabemos que isso seria absurdo, já que antes mesmo de Maria estar grávida, ela já estava comprometida com José. Desta forma, vemos que o texto não poderia dizer tal coisa, nos levando a entender que conhecer na mente de um judeu é ter um relacionamento profundo, no caso de José e Maria trata-se da relação sexual. Se entendermos isso, veremos que Romanos 8.29 está dizendo que aqueles com quem Deus relacionou-se profundamente de antemão, ou seja, amou, a esses predestinou.

Entendendo o objetivo de tal predestinação, entenderemos que não há como interpretar “conhecer de antemão” como se referindo ao fato de Deus ter visto na eternidade o que aconteceria no futuro. Se for assim, teremos um problema muito sério. Veja que o mesmo grupo que é dito ser conhecido de antemão é também predestinado para ser conforme à imagem do Filho. Isso significa que aqueles que Deus conheceu na eternidade serão conformes à imagem do Filho – a menos que pensemos que Deus pode não alcançar seus objetivos. Tal raciocínio nos leva a pensar, então, que todo mundo será à imagem do Filho, tendo em vista que Deus conhece a todos de antemão, já que ele é onisciente.

Essa interpretação, portanto, não ficou muito boa, pois sabemos que muitos serão condenados. Deste modo, não podemos interpretar “conhecer de antemão” como sendo saber antes, pois Deus conhece a todos. Sendo assim, “conhecer de antemão” é mais bem interpretado como se referindo ao amor de Deus por aqueles que ele ainda criaria e salvaria. Agora, a razão pela qual Deus amou alguns salvadoramente e não a outros não nos foi revelada, mas que ele predestinou uns para serem seus filhos (Sl 139.16; Rm 9.15-21; Ef 1.3-6) e outros para serem condenados (Pv 16.4; Rm 9.15-21), quanto a isso não há dúvidas.

O amor de Deus, portanto, é a causa de sermos salvos. Por sua própria escolha, o Senhor traz para si a todos quantos deseja, o que nos leva a ter segurança na obra de restauração. Nada pode impedir que Deus faça o que ele deseja, tendo em vista ser ele o Criador de todas as coisas. O próprio Senhor Jesus nos ensinou isso ao dizer: “Todo aquele que o Pai me dá, esse virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum o lançarei fora” (Jo 6.37, ver também o v.35). Além disso, voltando a Romanos 8, a partir do verso 30, vemos Paulo desenvolvendo a doutrina da segurança da salvação.

Depois de dizer que o Pai predestinou aqueles a quem ele ama, Paulo ensinou que esse chegarão a esse objetivo, com certeza. Romanos 8.30 nos diz: “E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou”. Repare que o mesmo grupo que foi predestinado recebe a certeza de que será glorificado. Portanto, além de termos sido predestinados por Deus, somos por ele guiados até a consumação da salvação.

Isso significa que não só não perdemos a salvação, como a mesma não depende de nós. Em nenhum momento a Bíblia mostra a salvação apoiada, dependente ou contando com a ajuda do homem para se tornar realidade. A salvação é totalmente pela graça de Deus. Aliás, em Efésios, o apóstolo Paulo nos informa que nossa salvação está firmada em dois fundamentos: a predestinação e Cristo. Em Efésios 1.3-6, vemos o ensino paulino de que Deus nos escolheu antes da fundação do mundo, antes mesmo que existíssemos. Mas isso se refere à predestinação de Deus, o que ocorreu antes que houvesse tempo.

A outra parte da obra de salvação, que adentra a dimensão do espaço e tempo, está firmada em Cristo. De fato, ele se envolve na obra de salvação desde a eternidade, contudo, sua obra é efetivamente realizada no tempo. Quando Paulo escreveu que fomos predestinados em Cristo (v.4), ele estava afirmando que aquilo que o Pai fez na eternidade, ou seja, predestinar, foi realizado pela obra de Cristo no tempo e no espaço. Deus nos escolheu para que fôssemos salvos pela ação de seu Filho. Isso nos leva a entender que a salvação não se trata de que algo de bom aconteça a nós, mas de que a glória de Deus seja manifesta em seu Filho (Fl 2.5-11).

Desde o início, o que Deus desejava, era mostrar ao mundo sua dependência de seu Criador. A restauração da humanidade e de toda a criação é, na verdade, a ação de Deus de revelar seu amor, graça, ira, justiça, misericórdia, sabedoria, inteligência, fidelidade, soberania, providência, enfim, todo o seu ser. Estamos, portanto, sendo restaurados para retornarmos àquela relação de comunhão com Deus, pela qual tínhamos a visão correta das coisas, de nós mesmos e de nosso Criador. Estamos sendo restaurados àquele estado no qual a verdade nos era revelada através da relação direta e perfeita com Deus. Quando isso for realizado plenamente, não haverá mais as distorções do pecado e nem de agentes imperfeitos, como eram os profetas e os sacerdotes, e como são os pastores. Estaremos mais uma vez e plenamente unidos ao Pai, gozando de sua glória enquanto ele a revela a nós.

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